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  • Marcelo Faria de Barros

A morte misteriosa da linda milionária paulistana


O tiro foi disparado à queima-roupa e com o carro em movimento. Desgovernado e espalhando estilhaços de vidro pelo chão, o veículo derivou para a direita. Invadiu o acostamento e chocou-se violentamente contra o guard-rail e o muro de concreto do viaduto, próximo à ribanceira. Entardecia naquela quinta-feira, 31 de agosto de 1967, no km 49 da Via Anchieta, trecho de serra, sentido litoral paulista, entre São Bernardo do Campo e Cubatão. O veículo era dirigido por Maria Teresa Ayres Dianda de Lara Campos, 23 anos, jovem rica da sociedade paulistana, desquitada, mãe de duas meninas. Duas horas antes, ela saíra de casa, dizendo para mãe que iria nadar com uma amiga, num clube de ricos na capital paulista. Não foi mais vista.


Maria Teresa foi encontrada sozinha no carro logo após o acidente. Quando os primeiros motoristas pararam para prestar-lhe socorro, encontraram-na ferida. Estava inconsciente e com as pernas sobre o volante, tombada no banco do passageiro de seu Aero-Willys azul, placa 9311, ano 1964, de São Paulo. Exceto por uma janela com o vidro estilhaçado, as demais, assim como as portas do carro, permaneciam trancadas e travadas. Havia manchas de sangue nos bancos da frente, no painel e no pára-brisa, na parte interna direita.


O vidro espatifado era o da janela da porta dianteira esquerda, que também tinha manchas de sangue na parte externa. O motor soltava fumaça e as lanternas traseiras estavam acesas e piscando. O farol e o pneu do lado direito, entortados. O capô retorcido e levantado. O detalhe da mancha de sangue fora do carro, levaria, mais tarde, à suposição de que Maria Teresa poderia estar acompanhada. E ainda de ter havido luta no interior do carro, antes da colisão.


Dois policiais rodoviários de Cubatão chegaram de motocicleta meia hora depois. Encontraram o local do acidente bem tumultuado. Pelos cálculos deles, deveria haver cerca de 200 pessoas próximas ao Aero-Willys. Eram motoristas, passageiros e curiosos, moradores da região. Os policiais tiveram muita dificuldade para abrir o Aero-Willys e socorrer a mulher. Usaram um pedaço de ferro estreito para destravar uma das portas traseiras que, aberta, liberou as demais. Perceberam que o rádio do carro, em volume baixo, tocava uma música suave, indiferente ao que se passava. Recolheram duas bolsas no banco traseiro.



Maria Teresa foi levada num carro da polícia para a Santa Casa de Santos. Chegou morta ao pronto-socorro. O horário foi registrado no prontuário médico: 19h30. Data: 31 de agosto de 1967. Causa: vítima de acidente automobilístico. Na manhã seguinte, o corpo foi autopsiado no IML de Santos. Os legistas tiveram uma surpresa: encontraram um orifício de bala, de pequeno calibre, na cabeça: na região direita do frontal. A morte fora provocada por um tiro, não pelo acidente. Os jornais dariam grande destaque à história. “Linda milionária assassinada na Anchieta”, era manchete de um deles. Nas páginas internas, outros detalhes do caso, com várias suposições, e uma descrição física de Maria Teresa : ‘Linda mulher, olhos grandes, boca e corpo bem feitos, cabelos castanhos cortados acima do ombro e mãos finas”.


Crime sem arma


A perícia vistoriou o Aero-Willys. Não encontrou nenhuma arma. Um dos peritos relatou à sua chefia que o local estava muito prejudicado, contaminado. Havia sido revirado, remexido por muita gente, o que impossibilitara a coleta de impressões digitais. Fizeram várias fotos para ilustrar o relatório da perícia e o carro foi levado para o pátio da delegacia de Cubatão. Uma semana mais tarde, nova vistoria. Outra surpresa: a polícia encontrou uma cápsula deflagrada de calibre 7,65mm, embaixo do tapete do banco do passageiro.

Testemunhas do acidente e parentes começaram a ser ouvidos. A polícia soube que naquela quinta-feira, Maria Teresa havia saído uma hora mais cedo do trabalho, às 16h30, sem qualquer motivo especial. Trabalhava na firma de importação da família, na capital paulista e fazia o seu próprio horário. Foi para a mansão dos pais, na Rua Bento de Andrade, região dos Jardins, onde estava residindo temporariamente com as duas filhas, depois da formalização de seu desquite com o pai das crianças, um corretor de seguros.


Trocou de roupa, apanhou um maiô e um par de sapatos baixos. Colocou-os numa bolsa branca. Despediu-se da mãe, Isaura Ayres Dianda, dizendo que se encontraria com uma amiga e depois as duas iriam nadar no Clube Athlético Paulistano, nos Jardins, frequentado pela alta sociedade de São Paulo. Combinou com a mãe de não demorar para voltar. Não apareceu no clube.


Uma cápsula intacta de revólver na bolsa.


A polícia examinou as bolsas recolhidas no Aero-Willys. Encontrou o maiô e o par de sapatos numa bolsa branca, grande, e toda manchada de sangue. Na outra, menor, localizou os documentos pessoais de Maria Teresa, fotos das filhas, uma cápsula intacta de calibre 7,65mm, dois vidros de remédios: um de calmante e outro de antialérgico, resultados de exames laboratoriais e receitas médicas assinadas por um psiquiatra. Havia ainda uma carteira marrom com NCr$ 4,66 (quatro cruzeiros novos e sessenta seis centavos) moeda vigente na época, e mais alguns trocados.


Maria Teresa foi enterrada em São Paulo, no Cemitério da Consolação. A polícia ouviu alguns amigos dela e passou a acreditar em suicídio. Maria Teresa andava deprimida e meio aérea, contaram os amigos, que suspeitavam ser por causa do desquite, que ela assinara havia três meses. O psiquiatra nada acrescentou.


O pai, o importador Arturo Dianda, prestou declarações. Rebateu a versão de suicídio. Disse que a filha era uma pessoa independente, alegre, mãe de duas meninas. A mais velha iria fazer seis anos por aqueles dias. Não tinha razão para tirar a própria vida. Contou ainda que Maria Teresa casara-se em 1961, com apenas 17 anos, com um corretor de seguros, sob o regime de separação total de bens e que o desquite fora celebrado de forma amigável e consensual. Ouvido, o ex-marido confirmou as declarações prestadas pelo ex-sogro. A polícia descartou qualquer suspeita sobre ele.


Sumiço de uma arma


O pai fez uma revelação considerada importante para a polícia. Contou que uma pistola automática Beretta 7,65mm, de sua coleção particular, havia sumido de sua casa. Os investigadores deduziram que Maria Teresa poderia ter apanhado a arma do pai e se suicidado. “Mas onde estaria o revólver?”, indagaram entre si. Concluíram que a Beretta poderia ter sido furtada durante o tempo em que a jovem permaneceu ferida no carro.


O Ministério Público de Santos discordou da tese de suicídio. O exame de balística revelara que o tiro fora dado à queima-roupa, com o carro em movimento e com uma trajetória de apenas 5 graus de inclinação. Os peritos explicariam que a trajetória da bala, em casos de suicídio, acontecia com 45 graus de inclinação e nunca com 5 graus, quase horizontalmente, como no caso de Maria Teresa.


O promotor se apegou a este e a outros detalhes para insistir no homicídio. Achava difícil acreditar que uma pessoa disposta a se suicidar fosse passar em casa para apanhar um maiô e um par de sapatos e depois acabar com a vida. Entendia como suspeito, Maria Teresa, com pouco dinheiro na carteira, fazer uma viagem para Santos, correndo o risco de ter de abastecer o Aero-Willys azul e não ter como pagar. Achava que Maria Teresa estava acompanhada na hora do acidente. Para isso recorria a uma foto do carro feita pela perícia, na qual o Aero-Willys era mostrado parado, como se alguém o tivesse estacionado normalmente, tendo o cuidado de evitar que ele se precipitasse pela encosta da serra. Os peritos confirmaram ter encontrado o carro estacionado naquela posição. O que levaria a crer que se não fora o assassino, alguém havia mudado uma cena de crime.



“Há um assassino na história”


A apuração foi transferida para a Divisão de Homícidios, na capital. Os jornais cobravam diariamente uma solução. A vítima era rica. A polícia técnica se incumbiu de acrescentar mais mistério à polemica. Ao fazer uma terceira vistoria no veículo, um perito garantiu que teria encontrado dois tipos de sangue. Isso colocava uma segunda pessoa no carro. Os jornais repercutiram com estardalhaço: “Há um assassino na história”. O material seria uma gota de sangue no tecido que revestia a porta dianteira. A colheita da prova não foi possível. A história acabou esquecida. Para piorar, o carro de Maria Teresa, liberado para a família, pegou fogo numa oficina em Santo Amaro, zona sul de São Paulo, para onde fora levado para consertar. Sofreu perda total. Novos rumores na imprensa de uma suposta obstrução de provas.


O processo foi arquivado. Com o passar dos anos surgiram novos comentários e versões para a não elucidação do caso. O envolvimento de pessoas de destaque na alta sociedade. Um tenista rico e viúvo, um industrial e o filho de um senador, que teria trocado uma bem sucedida carreira política no regime militar, pela impunidade e liberdade do filho.

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