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  • Marcelo Faria de Barros

A queda do Samurai

A notícia do desaparecimento do avião chegou pouco antes do fechamento do jornal. Os teletipos faziam um barulho alucinado. Teletipos eram aparelhos telegráficos utilizados pelas agências de notícias, que transmitiam as últimas informações diretamente em texto. Os teclados de cada aparelho, semelhantes ao de uma máquina de escrever, não paravam de se mexer, solitariamente.


A chefia da redação ficou em polvorosa. Publicou uma nota de primeira página sobre o desaparecimento do avião na edição que chegaria às bancas de manhã.

A aeronave era um turboélice Samurai PP-SMI, da ponte área Rio-SP. Pertencia à companhia VASP (Viação Aérea São Paulo, que deixou de operar em 2005). Tinha saído às 20h30 do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com 20 passageiros e cinco tripulantes. Era uma quarta-feira, 12 de abril de 1972. Entre os passageiros havia um brigadeiro, um alto executivo da Shell do Brasil e também três funcionários da VASP (tripulação extra). O avião era um Nihons YS-11, de fabricação japonesa. Tinha capacidade para 60 passageiros e cinco tripulantes. A VASP o batizara de Samurai.


A chegada ao Rio de Janeiro estava prevista para as 21h30. O último contato foi às 21h20 com o centro de controle de aproximação no Rio. Voava a uma altitude de 10 mil pés (3.300 metros). O piloto informou que sobrevoava o Aeroporto do Galeão em direção ao Santos Dumont. Foi o último contato.


O jornal Diário da Noite, em São Paulo, rapidamente se mobilizou e mandou o repórter Ari de Moraes, o Napoleão, e o fotógrafo João Habenschuss Filho, o Peixe, cobrirem o caso. Experientes, seguiram de carro, no início daquela madrugada, para o Rio de Janeiro.


Além do bloco de anotações e canetas, Napoleão levava um pequena maleta com faca, corda, alicate, uma bússola, dois cantis metálicos e algumas roupas de baixo, embrulhadas. O “material” já fazia parte das manias do conhecido repórter de polícia. No caminho para o Rio, pelo rádio do carro, souberam que a queda do Samurai havia ocorrido na Serra de Petrópolis, depois de chocar-se com um morro e incendiar-se.


O acidente foi no Morro do Limoeiro, Serra Maria Comprida, na região de Petrópolis, distante 64 quilômetros do Aeroporto Santos Dumont, destino do pouso da aeronave. “Uma área de mata fechada e sem trilhas, num vale entres duas encostas, com picos rochosos e altos, paredões e precípios de pedras”, descreveria, posteriormente, o repórter. Os destroços tinham sido avistados a 1.500 metros de altura.


A área só era acessível de helicóptero. A localidade mais próxima era Sardoal, a uma hora de Petrópolis. Ari de Moraes e o fotógrafo Peixe chegaram ao pé do morro por volta de 6 horas. No local, já havia outros repórteres da região. Mas tinham desistido de chegar ao local do acidente por ser de difícil acesso.


Napoleão ouviu o relato dos colegas locais. Chamou o fotógrafo Peixe. Perguntou-lhe se toparia subir pela mata. O fotógrafo disse que sim. Eles nunca tinham feito trilha ou andado em matas. Iam na coragem. O repórter deixou o embrulho com as roupas no carro que o trouxera de São Paulo para trocar na volta. Foi a uma birosca próxima que havia em Sardoal. Encheu um cantil com água e outro com cachaça e pagou.


Partiram às 7 horas. Um repórter de uma revista decidiu acompanhá-los. Para criar coragem, tomavam de vez em quando um gole da cachaça do cantil. O tempo começou a esquentar. A cachaça e o sol fizeram com que sentissem muito calor. Foram deixando os supérfluos pelo caminho: blusas, casacos, a maleta do repórter, tudo pendurado nas árvores. A intenção era apanhá-los na volta.


Durante o trajeto, o jornalista da revista não conseguiu escalar uma barreira escorregadia por causa da água que escorria na serra, ficou para trás e se perdeu na mata. Seria resgatado horas depois pelas equipes que trabalhavam no acidente. Depois de procurar em vão pelo colega, a equipe do Diario da Noite prosseguiu a subida. Após sete horas de caminhada, os jornalistas chegaram ao local do acidente e avistaram a cauda do avião. Eram 14 horas.


O cenário seria descrito pelo repórter como desolador: “Com exceção da cauda, os avião se fragmentou em vários pedaços. Ao explodir, no choque com o Morro do Limoeiro, queimou vegetação num raio de mil metros, deixando a terra nua e enegrecida”. Equipes do Para-Sar - Esquadrão de paraquedistas de Busca e Salvamento da Força Aérea Brasileira (FAB ) já trabalhavam no resgate. Apenas 18 dos 25 corpos tinham sido encontrados, carbonizados.


Pouco depois outro helicóptero do Para-Sar pousou no morro. Trazia o presidente da VASP Wilson Rovil Rossi. Foi acompanhar os trabalhos da Aeronáutica. Ficou admirado e elogiou a coragem do repórter e do fotógrafo do Diário da Noite por terem feito todo o trajeto a pé até a área do acidente. Anotou os nomes e endereços dos dois. Mais tarde convidou-os para retornar ao Rio de Janeiro de carona no helicóptero. Pensaram nas dificuldades da volta e aceitaram na hora. Deixando para trás o Samurai acidentado e as coisas que ficaram penduradas nas árvores, na subida do morro.


Atribuiu-se, mais tarde, a falha humana a causa do acidente. A tripulação não teria percebido um desvio de rota. Como o Samurai não tinha caixa preta, a causa real continua um mistério.



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