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  • Marcelo Faria de Barros

Assassinato do industrial Frederico Amante Neto

Um mendigo encontrou o corpo. Procurava garrafas vazias na rodovia Caminho do Mar, antiga Estrada Velha de Santos, entre São Bernardo do Campo e Cubatão. Na altura do quilômetro 43, sentiu forte odor vindo da mata. Foi verificar. Percebeu que havia uma oferenda religiosa depositada numa clareira escondida na floresta. Ao se aproximar, a surpresa: deparou-se com um homem morto, pendurado pelos pés, nos galhos de uma árvore, próxima à ribanceira. Vestia terno e camisa azul claro, gravata vermelha e calçava sapatos sociais marrons. Estava amordaçado, com as mãos amarradas às costas com tiras de esparadrapo nos pulsos. O corpo estava em adiantado estado de decomposição.


Numa reação instintiva e nervosa, o mendigo Sebastião Galvão Ribeiro Filho largou no chão o saco de pano encardido, que usava para carregar objetos que recolhia na rua. Olhou para o velho relógio de pulso Orient, com o vidro interno oxidado e pulseira imitando couro. Era meio-dia de 15 de dezembro de 1972, sexta-feira. Voltou correndo para a estrada. Parou um motorista que seguia para a Baixada Santista e pediu ajuda. Guardas rodoviários e policiais civis de Cubatão surgiram pouco tempo depois, com os carros com sirenes e giroflexes ligados.


O corpo foi resgatado pelos bombeiros. Seria identificado dias depois. Era de Frederico Amante Neto, 48 anos, desquitado, rico industrial, radicado em São Paulo, que havia desaparecido 20 dias antes, em plena avenida Paulista, ao sair, à noite, de uma reunião da maçonaria. Frederico Amante Neto era dono da Lavre S/A Produtora e Distribuidora de Ferro e Aço. A sede da empresa ficava em Guarulhos, na Grande São Paulo, e contava com filiais pelo país. A Lavre, à época, dominava 65% do mercado interno de laminados de ferro e aço. O assassinato de Frederico Amante Neto até hoje consta como não esclarecido nos arquivos da Polícia de São Paulo.


Dedos mutilados para dificultar identificação


No dia do encontro do corpo, de início, um detalhe chamou a atenção dos policiais. Todos os dedos da mão esquerda e dois dedos da mão direita estavam mutilados. Cortados na altura da segunda falange, provavelmente para dificultar a identificação através de pesquisa de impressões digitais. A identidade foi confirmada por Alberto Barreto, dentista do industrial que, no exame de arcada dentária, reconheceu duas obturações que tinha feito em Frederico Amante Neto: uma no incisivo superior esquerdo e outra no primeiro molar superior direito.


A polícia já desconfiava que o corpo era do industrial. Não quis confirmar a identidade por causa da mutilação dos dedos das mãos. Apesar de, na hora do resgate do corpo, terem sido encontrados nos bolsos do terno folhas de cheques, cartões de créditos do Diners, Elo, Passaporte, do Banco do Brasil, e do antigo Banco do Estado de São Paulo (Banespa) em nome de Frederico Amante Neto. Havia ainda uma carteira de identificação da Loja Maçônica Alvorada, localizada na capital paulista, um cartão de contato de um hotel no Rio de Janeiro, bilhetes de amigos, fotos da única filha do industrial, Valéria, e de outra mulher, que não era a mãe da garota, de quem estava desquitado havia muito tempo. Foram encontrados também dois bilhetes da loteria federal para a extração de Natal.


A polícia se viu diante de um grande dilema: se mutilaram os dedos para dificultar a identificação, por que deixar os papéis que o identificavam nos bolsos do terno? Não tinha explicação. Os policiais só não localizaram os talões de cheques, um anel e Cr$ 2 mil (dois mil cruzeiros) que funcionários garantiram ter visto o industrial sacar no banco no dia do desaparecimento.



Tiro e tortura


Os médicos legistas confirmariam também a causa da morte: um tiro à queima-roupa disparado de uma arma automática de calibre 9 milímetros, atrás da orelha esquerda. Constataram também um afundamento no rosto e fratura exposta no crânio. Mutilação da face provocada por pancadas e socos, além de sinais de tortura. Os peritos chegaram a outra conclusão importante: Frederico Amante Neto fora assassinado horas depois de ter desaparecido na Avenida Paulista, pois, na autópsia, encontraram restos de comida no estômago. Isso só fez aumentar o mistério sobre seu desaparecimento: como foi capturado? Ninguém o viu ser levado naquela noite na avenida Paulista? Onde ele foi morto? Conhecia os assassinos? Pois, se fosse alguém desconhecido, o industrial poderia ter gritado por socorro. Quando e como o corpo foi deixado na Estrada Velha de Santos?


Frederico Amante Neto nasceu em Minas Gerais e foi criado em Barra do Pirai, no estado do Rio de Janeiro. Abandonou a escola no antigo ginasial para trabalhar. Teve vários empregos. O último foi de carreteiro, transportando ferro e aço para Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda. Juntou dinheiro e conseguiu criar sua própria transportadora. Expandiu seus negócios para o ramo de siderurgia e criou empresas em cidades vizinhas como Barra Mansa, Resende e Bananal. Enriqueceu.


Em 1952, quando tinha 28 anos e já era um homem rico, envolveu-se num caso de homicídio, na região da cidade de Bananal, na divisa de São Paulo e Rio de Janeiro. Durante uma caçada, a espingarda que carregava teria disparado acidentalmente e atingido as costas (e matado) Geraldo dos Santos, um amigo de infância dele, que também trabalhava com aço em Volta Redonda. Frederico Amante Neto foi processado, julgado e absolvido do crime.



Acusado de mandar matar delegado


Em 16 de janeiro de 1956, houve um acidente na Via Dutra, próximo à Barra do Pirai, envolvendo um carro particular e uma carreta da cidade de Barra Mansa, que transportava aço e ferro, pertencente a um amigo de Frederico. O delegado de Barra do Piraí, Francisco Rodrigues Lisboa, de 55 anos, atendeu o caso. Acabou se desentendendo com o dono do caminhão ao perceber que este tentava descaracterizar o local do acidente. Discutiram. O caminhoneiro esbofeteou o delegado na frente de outras pessoas. O policial pediu ajuda. O motorista foi preso. Na delegacia o agressor teria sido espancado por colegas do delegado. A notícia se espalhou na cidade de Barra do Piraí. Uma multidão foi para frente do prédio da polícia. Houve ameaças de invasão. O dono da carreta foi libertado.


Doze dias depois, na noite de 28 de janeiro de 1956, o delegado Francisco Lisboa sofreria um atentado a tiros em um bar na cidade. Ele tinha acabado de jantar na companhia de um escrivão de polícia, quando um carro ocupado por três homens passou na rua atirando em direção ao bar. O escrivão se jogou no chão e saiu ileso. Atingido com cinco tiros, o delegado morreu. Frederico Amante Neto foi apontado como o mandante do crime. Julgado, foi absolvido por falta de provas. Em outra ocasião foi acusado de atirar na ex-mulher Teresinha, de quem se desquitara litigiosamente.


Na época do crime, Frederico Amante Neto morava com a filha. Ele era conhecido por frequentar bons restaurantes e, às vezes, boates caras de São Paulo. Costumava levar as mulheres a uma garconniére que mantinha no centro de São Paulo. Tinha o hábito, diziam, de reservar uma suíte em um hotel de luxo da capital, para os encontros que ele considerava especiais. Uma de suas companhias mais assíduas era uma “call girl ” – prostituta que atendia o chamado de clientes por telefone – conhecida na noite paulistana pelo apelido de “Kelly”, que desapareceu logo depois de ser ouvida pela polícia sobre a morte do industrial.

Desaparecimento na avenida Paulista


No final da tarde de 24 de novembro de 1972, sexta-feira, Frederico Amante Neto saiu de sua empresa a Lavre S/A, em Guarulhos, na Grande São Paulo, dirigindo o Galaxie, de placa 0807. Estava acompanhado de um diretor da empresa: Francisco Lau Netto. Seguiram para São Paulo para assistir a uma conferência maçônica nos salões do Club Homs, uma associação recreativa da comunidade sírio-libanesa, na avenida Paulista, 735. A reunião terminou às 22 horas. Frederico e Francisco Lau Netto saíram juntos. Na rua encontraram-se com um conhecido, o corretor Argemiro de Almeida. Ficaram conversando durante um tempo na calçada em frente ao Club Homs.

A avenida Paulista estava bem movimentada naquele horário. Muitos carros e ônibus. Bares e pontos de ônibus lotados. Gente circulando pelas calçadas; bancas de revistas, cinemas e um posto de gasolina abertos. Era horário de saída de estudantes de um cursinho e de uma faculdade no edifício da Fundação Cásper Líbero, conhecido como prédio da Gazeta. Frederico Amante Neto ofereceu-se para levar os dois amigos para casa. Argemiro de Almeida, no bairro da Moóca, na zona leste de São Paulo, e Francisco Lau Netto, em Guarulhos.


Agradeceram a oferta, mas, como iriam pelo mesmo caminho, resolveram dividir um táxi. Despediram-se numa banca de jornal. Francisco Lau e Argemiro seguiram à direita, pela Avenida Paulista, até um posto de gasolina na esquina com a Brigadeiro Luís Antônio, para apanhar o táxi. Frederico Amante Neto foi em sentido inverso, na direção ao estacionamento LM, no número 901 da Avenida Paulista, na calçada oposta do prédio da Gazeta. Neste trajeto teria desaparecido.


Não apareceu para trabalhar na Lavre na segunda-feira. Como costumava viajar para as filiais sem avisar, ninguém se preocupou. Não deu mais notícia. Na quarta-feira, os diretores da Lavre ligaram para a filha e souberam que ele não tinha aparecido em casa desde a sexta-feira anterior. Os funcionários ligaram para as filiais da Lavre S/A da Bahia e do Pará, mas a resposta também foi negativa. Procuraram em hospitais e IML da capital e da Grande São Paulo, não o localizaram. Nas empresas aéreas o nome do industrial não constava das listas de passageiros que embarcaram no Aeroporto de Congonhas a partir do dia 24 de novembro até aquela data.


Somente na segunda-feira, dia 4 de dezembro de 1972, dez dias depois, registram queixa de desaparecimento. A polícia ouviu funcionários, parentes e conhecidos e refez os últimos passos do industrial. No estacionamento, os policias ficaram sabendo que o Galaxie de Frederico Amante Neto permanecia lá desde o dia 24 de novembro, data do desaparecimento. A hipótese de sequestro não foi descartada, embora não tenha havido pedido de resgate. A polícia não tinha pista nenhuma até o corpo ser encontrado na Serra do Mar pelo mendigo.


Frederico Amante Neto foi enterrado no cemitério do Distrito de Rialto, perto da fazenda Sobradinho, uma propriedade centenária que possuía na época em Barra Mansa, no Rio de Janeiro. O velório foi tumultuado. Muita gente. A família não permitiu a abertura do caixão. Uma equipe de jornalistas de São Paulo foi expulsa e teve de ser escoltada até a via Dutra por um grupo de policiais ligados à Scuderie Le Cocq, o antigo esquadrão da morte do Rio de Janeiro, que acompanhava, ninguém sabe a razão, o enterro do industrial.



Os jornais exploraram bastante o caso. Surgiram todo o tipo de teoria da conspiração para explicar o crime. Falou-se em sequestro, mas não houve pedido de resgate. Vingança, latrocínio, ação de mafiosos foram as hipóteses levantadas. Chegaram a dizer que ele fora imolado num ritual satânico na Serra do Mar. Outros boatos na época davam conta de que, pelas torturas, Frederico Amante Neto teria sido assassinado pelo pessoal ligado a repressão política em São Paulo, devido a “algum suposto desacerto entre ele e os assassinos”.


O crime foi investigado por seis anos por 11 delegados e 27 investigadores. O inquérito, com 618 páginas, foi arquivado em 1978, sem esclarecer quem assassinou o industrial Frederico Amante Neto.


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