Buscar
  • Marcelo Faria de Barros

Aventura de espiões nazistas acaba em praia do Rio



O veleiro “Santa Bárbara”, de dois mastros e quatro velas, motor auxiliar a diesel, de 14 cavalos, levantou âncora de madrugada do Porto de Arcachon, região de Bordeaux, na costa atlântica da França. Era uma quarta-feira, dia 9 de junho de 1943. Segunda Guerra Mundial. A França vivia a ocupação nazista. O veleiro chamara-se anteriormente “Ginette”, homenagem a uma prostituta, amante do comandante do barco, Heinz Garbers. A mulher havia residido durante um período no porto. Acabou abandonando o amante alemão e foi ganhar a vida em Paris. Garbers, com 35 anos, sem mágoas, resolveu homenageá-la. Coisas de marinheiro.


A embarcação pertencia ao governo alemão. Fora requisitada para uma missão especial: trazer dois espiões ao Brasil: o alemão Wilhelm Heinrich Kopff, de 43 anos, e o holandês William Marcus Baarn, de 35 anos. Na época, o Brasil estava em plena vigência do Estado Novo do governo Getúlio Vargas. Um ano antes, 22 de agosto de 1942, havia declarado guerra à Alemanha e à Itália fascista, após torpedeamentos de navios brasileiros.


Os espiões Wilhelm Heinrich Kopff era de Hamburgo, Alemanha. Viajava com o nome falso de René Folgére. William Marcus Baarn, nascera em Paramaribo, na antiga Guiana Holandesa, hoje Suriname. Era negro e residia em Amsterdam, na Holanda, quando fora requisitado para o serviço. Tinham a missão de criar uma base de espionagem no Brasil, a partir do Rio de Janeiro. Montariam um escritório com central de radiotelegrafia. O governo nazista queria informações sobre o movimento de entrada e saída de navios e barcos, vigilância marítima e aérea e de cargas no porto do Rio de Janeiro e em toda Baía da Guanabara.

Todo branco antes da missão, o veleiro “Ginette”, de 25 metros de comprimento, foi rebatizado com o nome “Santa Bárbara”. Recebeu nova pintura: branco na parte próxima à linha de flutuação e daí para cima marrom. Tinha quatro velas: duas brancas e duas marrons. Estava camuflado de barco pesqueiro, com o costado (casco acima da linha de flutuação) pintado com a bandeira da Espanha, país aliado da Alemanha nazista. Carregava quatro metralhadoras leves, quatro pistolas metralhadoras, granadas de mão e 300 quilos de dinamite, além de rádio comunicadores e antenas portáteis.


À deriva

O barco saiu da França e seguiu rumo ao sul. Viajavam, além do comandante, seis tripulantes, entre os quais, um cozinheiro brasileiro, e os dois espiões. Percorreu toda a costa norte da Espanha. Seguiu uma rota utilizada por barcos pesqueiros, para fugir à vigilância dos aviões aliados e dos nazistas. Navegava a uma distância de 15 a 20 milhas da costa, cerca de 24 a 32 quilômetros. No Cabo Finisterra, próximo à fronteira entre Espanha e Portugal, dobraram à esquerda, tomando a direção sul. Passaram a 200 milhas - 320 quilômetros - de Lisboa. Trocaram a bandeira da Espanha pela de Portugal, no costado do navio.


Sempre vigiados por aviões de observações ingleses e alemães, prosseguiram no sentido continente africano. Passaram pela Ilha da Madeira e Ilhas Canárias, sempre seguindo a rota dos pesqueiros e não dos vapores, para não despertar suspeitas. Próximo ao Arquipélago de Cabo Verde, costa Noroeste da África, na madrugada de 23 para 24 de junho, o veleiro quase chocou-se com um navio patrulha americano, que navegava com todas as luzes apagadas. Os marinheiros americanos perceberam a aproximação do barco e conseguiram evitar a colisão.

A partir de Cabo Verde começaram os problemas para a tripulação. Por falta de ventos e fortes correntes contrárias, o “Santa Bárbara” ficou quase à deriva. Teve dia que conseguiu navegar apenas 15 milhas, um total de 24 quilômetros. A viagem sofreu um atraso de 14 dias e a comida começou a ficar escassa.



Personagens

Wilhelm Heinrich Kopff era um veterano da Primeira Guerra Mundial. Lutara na França nas tropas Exército imperial alemão. Participou dos combates no território francês de agosto de 1917 a setembro de 1918, quando foi ferido por estilhaço de granada. O acidente aconteceu um mês e meio antes do término da guerra, a 11 de novembro de 1918. Permaneceu internado num hospital francês durante seis meses até se recuperar. Curado, foi encaminhado a um campo de internação de prisioneiros em Villers-Bretonneux no Departamento de Somme, região dos Altos da França, distante 140 quilômetros de Paris. Só seria repatriado à Alemanha em 1920.


De volta, Kopff viajou o mundo. Decidiu morar no Peru, onde foi trabalhar num escritório de representação de uma firma alemã. Casou-se com uma peruana e teve uma filha. A mulher e a filha ficaram no Peru, quando Kopff resolveu voltar à Alemanha em 1939, início da Segunda Guerra. Por ter se casado com uma mulher latina, Kopff sofreu perseguição dos nazistas. Era considerado um alemão de segunda categoria, pai de uma filha bastarda.

William Marcus Baarn nasceu e viveu em Paramaribo, antiga Guiana Holandesa, até os 19 anos, quando embarcou clandestino num navio holandês e foi para a Europa. A Segunda Guerra Mundial o encontrou morando em Amsterdam, capital da Holanda. Trabalhava como mecânico e na construção civil. Em 14 de maio de 1940, a Alemanha ocupou a Holanda. Por ser negro, começou a sofrer perseguição dos nazistas. Pensou em fugir. Mas não conseguiu devido à forte vigilância nazista.


Aliciados


Como tinham residido na América Latina e falavam espanhol, Kopff e Baarn foram aliciados pelo escritório da AST-Stettlin, abreviatura de Abwer-Stelle, o serviço de espionagem da Alemanha de Hitler, em Hamburgo. Não se conheciam. Foram submetidos a quatro meses de treinamento intensivos de português, aulas ministrada por uma integralista brasileira, que morava na Alemanha. Estudaram à exaustão fotos aéreas ampliadas da Baía da Guanabara, feitas por aviões de reconhecimento alemães. Aprenderam técnicas de camuflagem e de trabalho de recolha de informações e transmissão por telégrafo.


Kopff foi incumbido de chefiar a missão no Brasil. Por isso estudou a montagem de estação e transmissão de mensagens e antenas de rádio; códigos secretos, escrita com tinta invisível e instruções de como escrever com água. Recebeu também uma pistola alemã com 15 cápsulas intactas, duas malas com uma estação portátil de radiotelegrafia e sete mil dólares americanos e grande quantidade de libras esterlinas, francos franceses, pesos argentinos escudos portugueses. O dinheiro era para ser utilizado para subornar policiais e conseguir documentos brasileiros, apoio de prostitutas, informantes e alugar imóveis. Baarn viajou com cinco mil dólares.

Noite sem lua

Após 14 dias praticamente sem vento e correntes contrárias, o tempo melhorou. O veleiro com os espiões seguiu para sudeste. Começou a navegar 100 milhas por dia, o equivalente a 160 quilômetros. Costeou o Brasil na altura da Bahia. Lá, o barco chegou a ser fotografado por um avião de observação americano.

O desembarque dos espiões deveria ocorrer no Rio e Janeiro, numa noite sem lua. Kopff desceria no Pontal de Sernambetiba. De lá deveria seguir para a Vila Isabel, onde faria contato com um brasileiro, simpatizante do nazismo, que desapareceu após a prisão do espião. O holandês desembarcaria na Barra da Tijuca, próximo à uma ponte que ligava a lagoa do Camorim ao oceano. Mudaram de planos. Convenceram o comandante a deixá-los no litoral Norte do Rio, em São João da Barra. A alegação: a Baía da Guanabara deveria estar muito vigiada e temiam ser interceptados. Outro fator era que a tripulação do barco teria pouco alimento para retornar à França.


O comandante Heinz Garbers, em princípio, relutou. Mas acabou cedendo após Kopff escrever uma carta a ser entregue para autoridades nazistas na França, responsabilizando-se pela mudança de planos.

Enterraram rádio e dinheiro na praia

Chegaram na costa da cidade de São João da Barra na noite de 8 de agosto, um domingo. Ancoraram a 15 milhas de distância. Recolheram as velas para dar idéia de que o veleiro era um barco pequeno. Na noite de 9 de agosto, sem lua, prosseguiram viagem com ajuda do motor auxiliar e ancoraram perto da praia. O holandês foi primeiro a descer. Acompanhado de dois marinheiros, foram remando um bote de borracha até a Praia de Gargaú, próximo à embocadura do Rio Guaxindiba, ao norte da cidade de São João da Barra. O alemão desceu em outro ponto da praia, uma hora depois. Os desembarques dos espiões foram bem atribulados. Os botes de borracha que os levaram à praia, viraram na arrebentação, jogando todos ao mar junto com os equipamentos. A tripulação de um dos barcos perdeu um dos remos. Quase não consegue voltar ao veleiro. Foi salva pelo comandante que a resgatou. O “Santa Bárbara” retornou, naquela mesma noite, para a França.

Depois de enterrarem as malas com rádios e o dinheiro em pontos diferentes da praia, com ajuda dos marinheiros, os espiões seguiram, de pontos diferentes para a cidade de São João da Barra. Pretendiam arranjar uma condução para a cidade de Campos dos Goytacazes, distante 36 quilômetros. Chegariam separados. De lá tomariam um ônibus para o Rio de Janeiro. Caminharam a madrugada toda. As estradas e as ruas estavam desertas. Fazia muito frio em agosto de 1943.


Suspeitas


A presença dos dois estranhos em São João da Barra, despertou suspeitas. Ainda mais porque falavam um português sofrível e com sotaque. Denunciados por moradores, foram presos no dia seguinte ao desembarque. O holandês na hora confessou o que eles tinham vindo fazer no Brasil. Disse que só fingiu ter aceitado a incumbência para sair da Holanda onde era perseguido por ser negro e que, no Brasil, procuraria as autoridades brasileiras e se entregaria.

Kopff só confessou após ouvir de um capelão estrangeiro que poderia ser fuzilado, no dia seguinte, se continuasse negando que era um espião. Os dois foram encaminhados para a Delegacia de Ordem Política e Social do Rio de Janeiro. Mais tarde transferidos para o Presídio Federal do Distrito Federal, na Rua Frei Caneca, bairro do Estácio, zona norte do Rio. Todo o material enterrado foi recuperado e apreendido.


Kofpp e Baarn foram condenados a 27 anos e meio de prisão por espionagem pelo antigo Tribunal de Segurança Nacional, hoje Superior Tribunal Militar (STM). O holandês William Marcus Baarn foi absolvido em segunda instância e libertado. O tribunal confirmou a sentença de Wilhelm Kopff em segunda instância, de 27 anos e meio de prisão. Ele cumpriu seis anos de condenação, pois a pena foi comutada duas vezes para 15 anos e depois dois em meio de prisão. Foi solto em 1949.










109 visualizações

©2020 por Histórias mal contadas. Orgulhosamente criado com Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now