Buscar
  • Marcelo Faria de Barros

Carrasco nazista preso em São Paulo trabalhava na Volks


O homem alto desceu do carro e caminhou alguns metros até a casa 229 da rua Senador Flaquer, no Brooklin, zona sul de São Paulo, para abrir a garagem. Eram 18h45, 28 de fevereiro de 1967, uma terça-feira. Ao colocar a chave no cadeado do portão, foi cercado e imobilizado por cinco desconhecidos armados. “Aqui é a polícia. Mão na cabeça e não reaja”, gritou um dos homens que parecia coordenar a operação. “Somos policiais do Deops", disse e perguntou: “Seu nome é Franz Paul Stangl?”. Surpreendido com a rapidez da ação, o homem, que completaria 59 anos em março, fez que sim com a cabeça.

A pretexto de justificar a ação, o policial complementou: “Existem três pedidos de extradição contra o senhor no STF. O senhor é considerado um criminoso de guerra. Além de uma ordem de prisão internacional por participação no extermínio de judeus, doentes mentais e ciganos durante a segunda guerra.” Stangl não teve qualquer reação.

Ao saber que fora preso por agentes do Deops e não por policiais dos serviço secreto israelense, o Mossad, o austríaco Franz Stangl suspirou e disse: “Ainda bem!” .Teria uma chance de não ser condenado à pena de morte pela execução de 700 mil judeus nos campos de extermínio nazistas de Treblinka e Sobibor, na Polônia, nos quais tinha sido comandante. Era acusado ainda de envolvimento no assassinato, por “eutanásia”, de 18 mil deficientes mentais e físicos, idosos, ciganos e opositores ao regime nazista. Os crimes aconteceram num sanatório no castelo de Hartleim, nas proximidades da cidade de Linz, na Áustria, entre 1940 e 1941. As vítimas foram assassinadas por meio de aplicação de injeções com veneno na veia e ou inalação de gás. Os nazistas chamavam este programa de “Euthanasia aktion”.


Denunciado pelo genro

Franz Stangl esperava ser preso mais dia menos dia. O genro dele Herbert Havel, ao se separar de Renata, sua filha do meio, (ele tinha mais duas filhas: Brigitta e Isolde) enviou, por vingança, uma certidão de nascimento do sogro para o Centro de Documentação Judáica, em Viena, Áustria, dirigido pelo famoso caçador de nazistas Simon Wiesenthal. Forneceu também o endereço dele em São Paulo. Stangl sabia que o ex-genro, que morava no Canadá, o havia delatado e que Wiesenthal viria atrás dele.


Logo após a prisão de Stangl pelo policiais do Deops, Simon Wiesenthal deu uma entrevista em Amsterdam, na Holanda. Apresentou outra versão para a prisão. Disse que desde a fuga de Stangl, em 1947, de um campo de internação de Glasenbach, próximo a cidade de Salzburgo, Áustria, o procurava. Wiesenthal achava que o nazista estaria usando nome falso, como fizeram outros foragidos nazistas que ele procurara. Não imaginava que Stangl mantivera o nome verdadeiro após a guerra.


Um punhado de dólares

Pouco antes da prisão, Wiesentahl soube por um informante que o carrasco nazista estaria residindo no Brasil, na cidade de São Paulo. O informante, segundo Wiesenthal, teria pedido US$ 25 milhões para fornecer o endereço. O caçador de nazista explicou que não tinha este dinheiro. Após várias negociações, o denunciante concordou em receber US$ 7 mil. Após receber o dinheiro, forneceu a localização do ex- comandante dos campos de concentração de Sobibor e Treblinka. Wiesenthal só não confirmou se o denunciante era o ex-genro do nazista.


Ajuda de bispo do Vaticano para fugir

Franz Stangl chegou ao Brasil no início dos anos 50. Ele desembarcou no dia 8 de agosto de 1951, no Porto de Santos junto com a mulher Thereza e as três filhas. Vieram de Roma no vapor Paulo Toscanelli. Como eram católicos, conseguiram, por meio da ajuda de um bispo do Vaticano, Alois Hudal, reitor do Colégio Pontifício Teutônico, passaportes da Cruz Vermelha. Antes do Brasil, moraram três anos na Síria.

Ao chegar, ele se apresentou à Delegacia de Estrangeiros da Polícia Federal. Com o passaporte da Cruz Vermelha, conseguiu regularizar sua situação e da família no país. Passou a residir em São Paulo com o nome verdadeiro. Ele era mestre tecelão de profissão.Trabalhou em várias empresas até ser contratado pela Volkswagen, em 1959, como o encarregado de manutenção de máquinas. Nunca comentou com ninguém sobre sua vida durante a guerra. No Brasil, só a mulher dele conhecida o seu passado nazista.


A Comissão da Verdade, apurou, durante o governo Dilma Roussef, que Stangl foi responsável pela montagem de uma central clandestina para monitorar os funcionários da Volkswagen, principalmente os envolvidos em atividades sindicais. Na noite em que foi preso, ele voltava do trabalho na empresa.


Carreira meteórica

Franz Paul Stangl teve uma carreira meteórica no exército nazista. Filho de um vigia noturno, ele nasceu em Almunster, na Áustria. A mãe chamava-se Thereza como a mulher com quem se casaria em 1936. Embora fosse mestre tecelão de profissão, resolveu entrar para a polícia política austríaca. Quando a Alemanha anexou a Áustria em 1938, ele foi incorporado ao exército nazista. Tornou-se fervoroso colaborador da Gestapo (polícia secreta na Alemanha nazista). Após ter atuado no sanatório do castelo de Hartheim, onde 18 mil deficientes mentais e físicos, ciganos, judeus e opositores políticos foram assassinados, foi transferido, em 1941, para Berlim. A transferência se deu após os nazistas terem encerrado o programa, depois de a imprensa internacional descobrir e divulgar os assassinatos no sanatório.


Solução final


Em Berlim foi trabalhar na Rua Tiergartenstrasse, número 4, sede do projeto mais secreto e ambicioso dos nazistas, o T-4: a solução final. A eliminação sistemática de judeus. As pessoas ali eram chamadas de “carrascos de escritório”. Já com a patente de capitão, em 1942, ele foi mandado à Polônia para construir o campo de extermínio de Sobibor, na comarca de Chlam, distrito de Lublin, com cinco câmaras de gás. Permaneceu lá alguns meses. Foi transferido para Treblinka, também na Polônia, para supervisionar a construção de outro campo de extermínio com 13 câmaras de gás e crematório. Comandou o campo de agosto de 1942 a agosto de 1943.


Simon Wiesenthal dizia que Stangl não era um nazista do tipo sádico. Sempre vestido impecavelmente, voz suave, educada e amigável, orgulhava-se de seu trabalho. Tratava suas vítimas como “cargas a serem despachadas”. Stangl afirmava que sua dedicação ao trabalho não tinha a ver com ideologia ou ódio aos judeus. Era uma forma da família dele sobreviver ao nazismo. Em Treblinka e Sobibor foram assassinadas 700 mil pessoas. Os campos acabaram desativados após duas revoltas que destruíram parte das construções.


Depois de Treblinka, Stangl foi mandado para cidade portuária de Trieste, na Itália, para ajudar na organização da campanha contra os partizans, guerrilheiros iugoslavos. Ferido em combate em 1944, foi mandado a um hospital em Berlim. Ele estava convalescendo em casa, em Linz, na Áustria, quando a guerra acabou. Capturado pelas tropas americanas, foi mandado para o campo de internação de Glasenbach, ainda na Áustria, de onde acabou fugindo em 1947. Só seria capturado 20 anos depois em São Paulo.


Robert Kennedy


Após a captura de Franz Stangl no Brasil, Simon Wiesenthal telefonou ao senador Robert Kennedy, na época era procurador-geral de Justiça dos Estados Unidos. Pediu-lhe ajuda para apressar a extradição do carrasco nazista. A extradição havia sido requerida separadamente por três países: Áustria, Polônia e Alemanha Ocidental.

Robert Kennedy ligou para as autoridades do governo militar brasileiro. Foi contundente: explicou que “não ajudaria aos Estados Unidos que se criassem obstáculos para a extradição de Stangl”. Nem precisava ter feito o pedido.


Galáticos


Ao contrário do que ocorre hoje, em 1967 o STF era composto por um time de ministros considerados estrelas de primeira grandeza, tanto pela experiência quanto pelo conhecimento profundo do Direito. Evandro Lins e Silva, Victor Nunes Leal, que foi o relator do processo, Hermes Lima, Luiz Gallotti, Candido Mota, Aliomar Baleeiro, entre outros. Famílias de sobreviventes de Treblinka em Israel também contrataram três advogados cariocas, não menos competentes e respeitadíssimos, para acompanhar o processo: Antonio Evaristo de Moraes, George Tavares e o até hoje lembrado Alfredo Tranjan, autor de um livro memorável que se tornou uma espécie de Bíblia da advocacia: “ A Beca Surrada”.


Em 22 de junho de 1967, quatro meses após ser preso, o STF autorizou a extradição de Franz Stangl. Escoltado por policiais federais, ele foi levado para Dusseldorf, na época Alemanha Ocidental. Em Dusseldorf, começou a ser julgado pelos crimes que cometera no período do governo nazista. Depois de oito meses, foi condenado a prisão perpétua. A sentença de condenação foi lida em 22 de dezembro de 1970. Recolhido no presídio de Dusseldorf, Stangl, que já vinha sofrendo com problemas cardíacos desde 1966, morreu de insuficiência cardíaca, no dia 28 de junho de 1971, aos 63 anos.

97 visualizações

©2020 por Histórias mal contadas. Orgulhosamente criado com Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now