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  • Marcelo Faria de Barros

Crime do Morumbi: traição, poder e morte no high society


O menino foi quem primeiro viu o corpo. O dia nem clareara por completo e ele já recolhia, a cavalo, o gado que havia escapado à noite do sítio do patrão. Ao passar pela estrada de terra, em frente a um descampado, o animal empacou. Assustado, o garoto chicoteou-o de leve, puxou a rédea e foi pedir ajuda aos operários num canteiro de obras de uma construtora, trezentos metros adiante. Era o primeiro dia da primavera, 23 de setembro de 1960, sexta-feira. O rapaz morto estava sem documento. Rosto coberto de sangue, calça e camisa sociais sujas de terra. Indicativo, segundo a perícia, de que fora arrastado, depois de morto, da estrada para o descampado. Dois objetos, encontrados num dos bolsos da calça, foram apreendidos: uma caneta-tinteiro muito cara, da marca Parker 61, com tampa folheada a ouro, e uma estatueta de Nossa Senhora Aparecida.


O corpo era do cineasta brasileiro Geraldo Junqueira de Oliveira, 30 anos, solteiro, figura de destaque e premiada no cinema nacional e internacional. Formado em arquitetura, o jovem diretor pertencia a uma das mais tradicionais e ricas famílias de São Paulo. Foi identificado por parentes no necrotério do IML de São Paulo, que já tinham registrado queixa de desaparecimento. Os legistas concluíram que ele fora assassinado com seis tiros à queima roupa, disparados de uma arma de calibre 32. Cinco atingiram o lado esquerdo do rosto; o sexto, a nuca.

“Quem atirou estava raiva do cineasta e queria destruir o rosto dele”, declarou um dos legistas aos jornais.


A polícia apurou com parentes que, na véspera do crime, ele saíra de casa para se encontrar com um desconhecido. Um chantagista. O homem dizia ser um detetive particular e se identificara, por telefone, como “José Miguel”. O suposto detetive descobrira que o cineasta mantinha relacionamento estável com uma mulher da alta sociedade, casada com um rico engenheiro. Fotografara o casal trocando carícias ao sair do prédio onde costumava se encontrar. Exigia Cr$ 100.000 ( cem mil cruzeiros) para não entregar as fotos e os negativos para o marido.


A morte de Geraldo Junqueira de Oliveira causou grande comoção nos meios sociais. Acabou revelando um enredo de intrigas em alta sociedade, infidelidade conjugal, dinheiro, chantagem e, supostamente, um crime de mando. No momento em que Geraldo Junqueira era enterrado no Cemitério da Consolação, em São Paulo, a amante, que teria sido pivô do crime, dava entrada em estado grave em um hospital da capital. Tentara o suicídio, ingerindo grande quantidade de tranquilizantes. Recebeu alta dias depois.


O assassinato do cineasta ficou conhecido na crônica policial paulistana como o “Crime do Morumbi”. O caso permanece até hoje sem solução. A polícia não se mostrou capaz de esclarecer. Nunca conseguiu descobriu como e porquê Geraldo Junqueira foi parar naquela longínqua Rua H, Travessa da Avenida B-1, Jardim das Belezas, Morumbi, na época uma área de loteamento sem calçamento, sem iluminação e desabitada. Se foi sequestrado ou por livre e espontânea vontade? Conhecia a pessoa que o assassinou?


“Mestre Caçador”




Geraldo Junqueira era apaixonado por cinema, fotografia e por locações em ambientes inóspitos. Sua especialidade era o cinema documentário. Por seus trabalhos, chegou a receber diversas vezes o Prêmio Saci, um dos mais cobiçados e entregue anualmente aos melhores da produção do cinema e teatro nacional. O prêmio: uma estatueta do Saci, figura do folclore brasileiro, esculpida pelo artista ítalo-brasileiro Victor Brecheret,


Geraldo atuava também como ator. Viajou pelo mundo fazendo documentários. Esteve na Argentina, Marrocos, Alemanha, Estados Unidos e na Ásia. Sua obra mais conhecida e premiada foi “Kirongozi”, Mestre Caçador , de 1956. O filme conta as aventuras de um amigo do cineasta, que organizava e participava de safaris na África. As locações foram realizadas no Quênia e Tanzânia, na época, países que integravam a África Oriental Britânica.


Em 1959, ele viajou para a Antártida para gravar “Silêncio Branco”. Filmou o dia a dia de uma expedição científica argentina na Antártida a bordo do navio quebra-gelo General San Martin. A embarcação percorreu 38 milhas marítimas - cerca de 70 quilômetros - a uma temperatura de 15 graus negativos, fazendo experiências nas áreas de glaciologia (estudo das geleiras), zoologia e flora e também visitando bases militares argentinas na Terra do Fogo e Baía Weddel, ao sul das Ilhas Malvinas/Falkland. Por este trabalho, Geraldo Junqueira foi homenageado post mortem com o Prêmio Saci, como melhor documentário em 1964.


Garçoniere


Geraldo Junqueira era um rapaz do tipo conquistador. Um “mestre caçador” conforme o nome do documentário que produziu. Seus relacionamentos, na maioria das vezes, eram com mulheres casadas da alta sociedade de São Paulo e do Rio de Janeiro. No início das investigações, a polícia chegou a montar um roteiro para ouvir testemunhas com base numa agenda de telefones e de endereços, pertencente a Geraldo.


O cineasta costumava levar as amantes a uma garçoniere, que mantinha no Edifício Júpiter, na Avenida Cásper Líbero, na região de Santa Ifigênia, no centro da capital paulista. Havia dois anos vinha tendo um caso com a mulher de um rico engenheiro de São Paulo. O porteiro do prédio, Ricardo Krimilok, ouvido pela polícia, na época, confirmou a história, explicando que o jovem diretor de cinema e a amante, havia sete meses, encontravam-se de três a quatro vezes por semana, no apartamento.


“A mulher era loira, magra, estatura média, aparentando 30 anos e não usava pintura”, descreveu o porteiro. “Saíam e entravam abraçados no prédio. Pareciam apaixonados”, acrescentou.


Foi o erro do casal. Uma tarde quando trabalhava na produtora, Geraldo Junqueira recebeu o primeiro telefonema do chantagista. Exigia Cr$ 100 mil. Em troca entregaria algumas fotos comprometedoras que tinha de Geraldo Junqueira com a amante. Ameaçava encaminhar as fotos e os negativos para o marido, caso ele não desse o dinheiro. O documentarista, a princípio, teria ficado nervoso. Mas se acalmou e decidiu negociar. Marcaram de se falar dois dias depois, para combinarem a forma de pagamento e local da entrega do dinheiro. Para demonstrar que não estava blefando, o chantagista ligou também para a casa da mulher casada, para obrigá-la a pressionar o amante a pagar.


Geraldo Junqueira telefonou para o cunhado. Contou-lhe que estava sendo vítima de uma extorsão. Pediu o dinheiro emprestado com a promessa de devolvê-lo em poucos dias e também uma arma. No final da tarde em que antecedeu o crime, 22 de setembro de 1960, quinta-feira, Geraldo Junqueira estava começando a sonorizar o filme “Silêncio Branco”, quando avisou a um assistente que teria de ir embora, pois tinha um encontro muito importante à noite. Não disse com quem e nem onde. Saiu da produtora e foi direto ao escritório do cunhado, no centro de São Paulo. Geraldo apanhou o dinheiro: Cr$ 80 mil, montante que o cunhado conseguiu levantar e a arma: um revólver Smith & Wesson, calibre 32, cabo de madrepérola, número de fabricação 181.475. O cunhado convidou-o para uma festa que daria em casa naquela noite. Geraldo Junqueira prometeu aparecer por lá antes de ir se encontrar com o chantagista. Não revelou onde seria o local da entrega do dinheiro. Foi embora. Às 20h30, Geraldo Junqueira ligou para a irmã, Ana, para avisar que não iria à festa. Foi o último contato dele.


Desmancha sem bater”


A polícia supõe que Geraldo Junqueira seguiu para o encontro com o suposto chantagista após ter telefonado para a irmã. Dirigia o Dauphine azul, placa 2331, de São Paulo, emprestado do avô. Levava os Cr$ 80 mil e o revólver Smith & Wesson, que pedira emprestado ao cunhado para se proteger. Dinheiro e arma nunca foram localizados. Os policiais deduziram que ele foi assassinado com o revólver do cunhado, pois os projéteis que o mataram eram do mesmo calibre da arma.


O Dauphine azul do avô de Geraldo só seria localizado na sexta-feira à tarde, algumas horas após o encontro do corpo. Estava abandonado, na contramão, na esquina da Rua Alemanha com Rua Noruega, na região dos Jardins, a 14 quilômetros do local crime. No banco traseiro, dobrado normalmente, o paletó. Num dos bolsos: os documentos de Geraldo Junqueira. Havia também uma pasta, no banco, com papéis em nome de uma parente dele. Não foram encontrados sinais de luta no carro. A perícia recolheu três fragmentos de impressões digitais no para-brisa, que se revelaram inúteis para a investigação.


Produzido pela montadora francesa Renault para competir com o fusca, o Dauphine chegou ao Brasil em 1959. Era o carro da moda em 1960. Construído para as estradas européias, no Brasil, com ruas e rodovias esburacadas, o Dauphine começou a apresentar problemas de suspensão, estabilidade e capotamento. A população o apelidou de “Leite Glória”, marca de um conhecido leite em pó dos anos 1960, que tinha como slogan a frase: “desmancha sem bater”.


Testemunha


Com a divulgação e repercussão da notícia, uma testemunha procurou a polícia. Antonio Lopes, jardineiro de uma mansão da Rua Noruega, no Jardim Europa. Ele estava no portão da casa às 22h30 da quinta-feira, quando viu dois rapazes estacionarem o Dauphine azul na esquina da Rua Alemanha com a Rua Noruega, na contramão. Segundo o jardineiro, eles trancaram o carro e saíram caminhando e conversando normalmente pela rua Alemanha. O jardineiro forneceu a descrição dos suspeitos: brancos, aparentando de 20 a 25 anos, de cabelos escuros. Um deles, alto e magro; o outro, baixo e atarracado. Ambos trajavam camisa esporte - um deles com manga comprida e outro de manga curta - e o mais alto levava uma blusa de lã sobre o ombro.

Amante, marido e detetive


A polícia começou a ouvir pessoas das relações do cineasta, enquanto tentava identificar os homens vistos deixando o Dauphine na região dos Jardins. Foi um desfile de bolsas, sapatos, chapéus, vestidos e ternos caros nos corredores do sexto andar do antigo prédio do palácio da polícia, na Rua Brigadeiro Tobias, 527, no centro, onde funcionava a Delegacia de Homicídios. Muitos jornalistas também


Os peritos estiveram na garçoniere no Edifício Júpiter e recolheram oito impressões digitais da amante. Descobriu-se ainda que ela estivera no apartamento com a vítima, na véspera do crime. Durante as diligências, os investigadores receberam uma denúncia de que o marido traído participara com a mulher da festa na casa da irmã do cineasta, mas que se ausentara da residência por duas horas. Quando retornou, estava nervoso, com a calça e sapatos sujos de terra. Logo em seguida o casal se despediu e foi embora. A polícia soube que o engenheiro esteve por pouco tempo no velório da vítima e depois viajou.


O cunhado foi ouvido. Inocentou a amante de Geraldo Junqueira e o marido dela de qualquer participação no crime. Alegou que ambos permaneceram o tempo todo na festa, até de madrugada. O tal detetive que chantageara a vítima também foi identificado e ouvido. Era um policial civil. Negou que conhecesse Geraldo Junqueira e que estivesse exigindo dinheiro dele e que usasse o nome falso de “José Miguel”.


Sem pistas, a polícia trocou três vezes o comando das investigações.Três delegados e equipes diferentes trabalharam no caso. Decretaram o sigilo no inquérito e sonegaram informações. A Delegacia de Homicídios (DHPP não existia) chegou a comprar um polígrafo nos EUA - um detector de mentiras - e trazer um tenente americano, George Wooley, da polícia de de Los Angeles, para acompanhar os depoimentos e aplicar o teste com o aparelho. O polígrafo é composto de sensores que medem as reações físicas e psicológicas das pessoas submetidas ao teste, através de suas agulhas que reproduzem traços e grafias em uma folha de papel. Tudo em vão.



Tortura e morte


Um ano e meio depois crime, sem conseguir identificar os culpados, a polícia abandonou a apuração científica. Partiu, como se diz na gíria da malandragem paulistana, para a “trombada”. Prendeu dois suspeitos pobres, corretores de imóveis. Laércio Paschoal Luongo, 30 anos, e Jacob Monte Bastos, 32 anos. Não se sabe como a polícia chegou neles. Os dois foram levados para os porões do prédio do Deops, no Largo General Osório, bairro da Luz, e torturados no “cambau” - o pau de arara.


Jacob Monte confessou o crime sob tortura, mas desmentiu depois na Justiça. Laércio Paschoal Luongo, 30 anos, foi torturado durante uma semana e não confessou. Massacrado pelas torturas, foi levado em estado grave, a um hospital em São Bernardo do Campo. Deu entrada com as pernas paralisadas e urinando sangue. Morreu dois dias depois. A polícia tentou forjar um acidente automobilístico para justificar a morte do corretor, mas não convenceu ninguém. Alegou que viatura que o transportava para uma audiência, teria capotado e provocado os ferimentos nele. Nenhum registro de acidente com carro de polícia foi encontrado na região onde disseram ter ocorrido.


Hilário Torloni, deputado do Partido Social Progressista(PSP), de centro-esquerda e de oposição ao governador de São Paulo, Carvalho Pinto, denunciou o caso de tortura da tribuna da Assembléia Legislativa de São Paulo. Exigiu o fechamento do Departamento de Investigação, ao qual estava subordinada a Delegacia de Homicídios.



“O inquérito se processava sem incidentes na Delegacia de Homicídios até a investigação apontar como autor um “Rodrigues Alves”, alguém rico da alta sociedade. Por esta razão, o titular foi afastado sumariamente e o caso terminou nesta tortura medieval que resultou em morte”, denunciou o deputado, insinuando que alguém poderia ter dado dinheiro, para que o caso não fosse solucionado

O assassinato do corretor de imóveis sob tortura provocou o afastamento de três investigadores e um delegado. Também o arquivamento definitivo do inquérito que investigava a morte do cineasta. Os policiais acusados de tortura nunca foram condenados.

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