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  • Marcelo Faria de Barros

De terrorista europeu a criminoso no submundo de São Paulo



O homem parado na porta iluminada da loja fez um sinal com um jornal, quando os dois Citroens pretos, vindos da rodovia RN306, escoltados por duas motocicletas, cruzaram as Rue Charles e Rue Du Bois, na comuna de Petit Clamart, subúrbio de Paris. Era a senha. Imediatamente um grupo de 12 homens, escondidos em três prédios na Rue Du Bois, começou a disparar rajadas de pistolas-metralhadoras contra os carros. Passavam alguns minutos das 20 horas, de 22 de agosto de 1962, uma quarta-feira, verão europeu. Era o início de mais um dos 30 atentados terroristas sofridos pelo presidente francês Charles De Gaulle. O ataque de Petit Clamart ocorreu um mês após a independência da Argélia, em 5 de julho de 1962.


A ação foi planejada pela OAS - Organisation Armée Secrèt - grupo paramilitar de extrema-direita, integrado por argelinos e franceses que se opunham à independência da Argélia. Um dos membros do grupo terrorista, Armand Alexis Victor Charpentier, o “Argelino”, seria preso cinco anos depois, em São Paulo. Não por terrorismo, mas por um crime comum: ele tentou matar a tiros o dono de uma boate no centro da capital paulista por causa de uma dívida de droga. Os tiros atingiram também um frequentador da boate, que sobreviveu. Charpentier havia trocado a luta política pela atuação no cartel internacional de drogas.

No ataque de Petit Clamart foram desferidos cerca de 200 tiros. Cento e oitenta e sete para ser exato. Houve ainda uma perseguição de carros pela ruas da comuna. O Citroen, modelo TS19, placa 5249HU75, onde viajam Charles De Gaulle, a mulher Yvonne e o genro Alain de Boisseu, dirigido pelo motorista Francis Marroux, teve dois pneus furados. Foi atingido ainda por 14 tiros, mas o motorista conseguiu escapar ao cerco. Na hora dos disparos, o genro Alain de Boisseau obrigou De Gaulle e a mulher a abaixarem entre os bancos. Ninguém ficou ferido.

Atentado inspirou livro “O Dia do Chacal


A ação em Petit Clamart, batizada de “Operação Charlotte-Corday”, inspirou o escritor inglês Frederyck Forsyth a escrever o livro “O Dia do Chacal”, na década de 1970. A publicação transformou-se em best-seller. Anne Charlotte Corday D’Armont era ligada à nobreza e entrou para a história ao assassinar, com uma facada no coração, Jean Paul-Marat, um dos maiores defensores da Revolução Francesa. Ela foi condenada e morta na guilhotina.


O comboio presidencial foi atacado quando seguia para uma pequena pista de pouso no Aérodrome de Vélizy Villa Coubly, nos arredores de Paris. De lá De Gaulle, a mulher, Yvone e o genro apanhariam um helicóptero com destino à casa de campo da presidência, na localidade de Colombey-Les-Deux-Églieses.


Fuzilado

O homem que comandou a ação e fez o sinal com o jornal na porta da loja era o tenente-coronel Jean Bastien Thiry. Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra, Bastien Thiry e os cúmplices fugiram após o atentado frustrado. Preso posteriormente, Jean Bastien Thiry foi condenado à pena de morte por um tribunal militar. O que agravou sua pena foi que, além de ter comandado a ação, o atentado foi praticado na frente de uma mulher, Yvone De Gaulle. O presidente francês não concedeu o perdão judicial e o tenente-coronel foi fuzilado em 4 de março de 1963. Outros dois militares também foram condenados à morte. As penas, porém, foram comutadas para prisão perpétua por Charles De Gaulle. Os dois foram libertados anos depois.


Charpentier


Embora Armand Alexis Victor Charpentier fosse membro atuante da OAS - Organisation Armée Secrèt -, não participou da “Operação “Charlotte-Corday” em Petit Clamart para matar o presidente francês Charles De Gaulle. Nascido na cidade portuária francesa de Brest, na Bretanha, em 2 de março de 1939, o “Argelino”, como era chamado pelos companheiros, estava preso em Paris pelo assassinato a tiros de Jean Pierre Galbert, também membro da OAS. Galbert havia recebido vultosa quantia em dinheiro da organização terrorista para conseguir passaportes falsos. Desviou o dinheiro e ainda denunciou o esquema de passaportes para a polícia secreta. Um tribunal militar da OAS julgou e condenou Jean Pierre Galbert à morte. Charpentier foi o encarregado da execução.


A Corte de apelação de Paris - Departamento de Sena, condenou Armand Alexis Victor Charpentier a 10 anos de prisão na solitária. Começou a cumprir parte da pena numa penitenciária na Comuna de Melun, região administrativa de Íle-de-France, cerca de 40 Km a sudeste de Paris.

Fuga e outro homicídio


No início de 1964, Armand Charpentier fugiu do presídio com mais três companheiros de cela, usando um automóvel. A fuga foi bastante tumultuada. Perseguidos pela polícia francesa, atropelaram um morador de Melun, que acabou morrendo. Na confusão, Armand Charpentier foi baleado pelos policiais em uma das pernas. Mesmo assim, conseguiu fugir. Refugiou-se no apartamento de um dos membros da organização em Paris. Após recuperar-se dos ferimentos na perna, a OAS arranjou-lhe um passaporte falso e ele fugiu para a Espanha. Voltou a ser condenado à revelia por homicídio pela morte do pedestre.

Da Espanha, ele viajou para a Argentina, onde se tornou sócio num cabaré, de nome Texas, na cidade de Buenos Aires. A partir daí, segundo a polícia, envolveu-se com a criminalidade comum.

Apartamento, revista e armas apreendidas


Em 3 de outubro de 1964, o presidente Charles De Gaulle chegou a Buenos Aires. A Argentina fazia parte de um roteiro de dez visitas do presidente francês a países na América Latina. Dias antes da chegada, a Polícia Federal argentina teria recebido uma denúncia de que poderia ocorrer um novo atentado contra o presidente francês. O denunciante forneceu o endereço de Armand Charpentier como o local do atentado.


Os policiais federais argentinos deram uma busca no apartamento de Armand Charpentier no segundo andar de um prédio da Avenida Del Libertador, 1308, Vicente Lopez, Buenos Aires. De Gaulle teria, forçosamente, de passar pela avenida no trajeto da embaixada da França e a Casa Rosada.

Armand Charpentier não se encontrava. Os policiais apreenderam um fuzil com mira telescópica e uma pistola Colt, calibre 45, além de passaporte falso. Preso por ter entrado ilegalmente no país, foi condenado a dois anos. Conseguiu fugir da prisão. Foi para o Paraguai. Segundo a polícia, desde a Argentina, Armand Charpentier já era ligado a grupos mafiosos internacionais. Estava com 28 anos quando chegou a São Paulo no dia 21 de setembro de 1967. Alugou temporariamente um apartamento no edifício Copan, no centro da capital.


Boate Chez Lucy


Próximo do Copan, na Galeria Metrópole, Avenida São Luiz, funcionava a boate Chez Lucy. O dono da estabelecimento era Ovídio Trobo Real. Segundo o proprietário da boate, na época, Armand Charpentier o procurou e começou a extorquí-lo. Exigia o pagamento de US$ 10 mil sob ameaça de violência. O francês chegou a lhe enviar bilhetes ameaçadores.


Quarta-feira, madrugada de 7 de novembro de 1967, Charpentier procurou Ovídio Trobo Real na boate. Tinha pressa em receber o dinheiro. Houve uma forte discussão entre eles. Ovídio teria tentado pegar uma arma que trazia na cintura. Charpentier foi mais rápido. Sacou uma pistola automática 7.65 e atirou, atingindo o dono da boate e um frequentador : Carlos Alberto Simoni Azambuja.

Dívida

Preso, Armand Charpentier foi chamado de gangster pelos jornais. O francês deu outra versão para o crime. Contou que conheceu Ovídio Trobo Real, quando morava na Argentina. Na época, trabalhava no ramo de exportação de artigos manufaturados para a França. Em razão dos negócios, travou amizade com o dono da boate Chez Lucy. Fizeram alguns negócios. Num deles, Ovídio Trobo Real ficou lhe devendo a quantia de US$ 10 mil. Decidiu vir procurá-lo em São Paulo para cobrar o que ele lhe devia. Ovídio se recusava a lhe pagar. Na madrugada do crime, depois de nova cobrança, eles acabaram discutindo. O francês afirmou que atirou em legítima defesa, pois Ovídio estava armado e tentou acertá-lo primeiro. A partir dessa “explicação” surgiram versões de que o desentendimento envolvia esquema de boates e cobrança de dívida de drogas


Armand Charpentier foi julgado no Primeiro Tribunal do Júri da capital paulista. Foi condenado a 4 anos e oito meses de reclusão, no dia 22 de fevereiro de 1969. Depois disso, nunca mais se ouviu falar dele. Sua história se perdeu no tempo.



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