Buscar
  • Marcelo Faria de Barros

Esquadrão da morte de São Paulo obriga jornalistas a participarem de execução


A luz da mesa da chefia de reportagem era a única que permanecia acesa na redação em penumbra. Três homens jogavam baralho para passar o tempo. Aguardavam o fim do plantão no jornal. Dalí sairiam para a noite. Primeiro beberiam no bar da rua 7 de Abril mesmo. Depois iriam à boate Siroco, na avenida Nove de Julho. Terminariam a noite nas boates da boca do luxo, área de prostituição frequentada pela classe média paulistana, policiais e jornalistas no centro da cidade. Passariam pelas boates Clube de Paris, Love Story, Michel e Dakar, entre as ruas Major Sertório, Rego Freitas e Araújo. E por fim, de manhã, tomariam o café com leite e pão no bar do Estadão.


Era início da madrugada, um sábado. Primeiros meses de 1969. Um dos rapazes começou a distribuir as cartas para uma nova rodada. Neste instante o telefone tocou ao fundo da redação. O boy levantou-se e foi atender. Reclamou da telefonista que não passara a ligação para a mesa da chefia. Apanhou o telefone e ouviu um homem, do outro lado da linha, pedir para falar com algum repórter. O boy perguntou quem queria falar e o homem respondeu: “ Diga que é o “Lírio branco”! O rapaz tapou o bocal do telefone e chamou o repórter: “Tem um cara aqui querendo falar com um repórter. Disse que é um tal de lírio alguma coisa”. Lírio Branco, completou o repórter, enquanto se levantava apressadamente.


Apanhou uma lauda bege, com o logotipo do jornal em cima da mesa, uma caneta e correu para atender o telefone. Anotou um endereço e desligou. Avisou ao fotógrafo, que distribuía as cartas do baralho, que teriam de ir a um local de crime na zona norte da capital. Segundo informou, alguém ligara avisando que no local havia três mortos. Enquanto o fotógrafo preparava a bolsa com a máquina, o flash e os rolos de filme, o boy preenchia a requisição para pedir um carro para a equipe.


O repórter avisou que sairia e aguardaria o fotógrafo e o motorista no bar na Rua 7 de Abril, em frente ao prédio do jornal. Pediu uma cerveja Niger, rótulo amarelo, preta e amarga, e uma “espremidinha”: pinga com limão. Enquanto bebia ficou recordando de outras cobertura que fizera dos crimes do esquadrão da morte.

Lembrou-se: Lírio Branco era um personagem que ganhara notoriedade na crônica policial paulista no final de 1968. Tornara-se o porta-voz do Esquadrão da Morte de São Paulo, um grupo de extermínio formado por policiais civis - delegados e investigadores - e por remanescentes da antiga Guarda Civil, que resolvera fazer justiça com as próprias mãos. A decisão fora tomada depois do assassinato de um colega, o investigador Davi Romero Parré, da Divisão de Patrimônio da Polícia Civil de São Paulo. Parré foi morto com um tiro no rosto durante uma diligencia, à noite, em Americanópolis, bairro pobre da zona sul da capital.

O autor do crime foi Carlos Eduardo da Silva, de 26 anos, o “Saponga”, condenado por roubo e fugitivo da Penitenciária do Estado na capital. Com a morte de Parré, ele passou a ser considerado o inimigo público número 1 da Polícia de São Paulo. Foi montada uma caçada gigantesca para localizá-lo.


No enterro de Parré, emocionados e revoltados, os colegas do policial dispararam suas armas para o alto e prometeram vingança. Gritaram para quem quisesse ouvir que “para cada policial morto, dez bandidos iriam morrer”. Nos dias que se seguiram à morte do policial (e por muito tempo depois) homens e mulheres, com antecedentes criminais, começaram aparecer mortos em diversas regiões da capital, cidade próximas e até em outros Estados. O próprio “Saponga” foi executado um mês e meio depois de ter assassinado o investigador com 12 tiros de calibre 44, segundo noticiário da época, “que o atingiram da cabeça aos pés”. O esquadrão da morte não parou de agir. Alguns de seus integrantes simultaneamente atuavam na repressão política aos grupos guerrilheiros que lutavam contra o regime militar.

Traficantes, assaltantes e cadeieiros velhos


Os mortos pelo esquadrão estavam envolvidos com tráfico de drogas, assaltos, furtos e homicídios. Alguns eram “cadeieiros velhos”, como se dizia na gíria do chamado submundo do crime. Muitos foram mortos com vários tiros de diferentes calibres. Alguns tinham sinais de tortura e apresentavam marcas de algemas nos pulsos. E nenhum documento que os identificassem.


Numa das execuções, em Guarulhos, Grande São Paulo, um homem negro, jovem, foi deixado só de cuecas inúmeras perfurações de tiros. Só tinha como identificação, duas tatuagens. Uma no antebraço esquerdo e outra no peito com os nomes: “Clotilde” e “Almerinda”, provavelmente recordações de antigas namoradas do rapaz. Ao lado do corpo havia uma cartolina branca com um desenho rústico, feito a mão, de um crânio e duas tíbias cruzadas, com as iniciais: “E.M.- SP”.

A partir dos primeiros crimes, “Lírio Branco” passou a ligar para as redações dos jornais, rádios e TVs para indicar os locais de “desova dos presuntos” (lugar onde os cadáveres eram deixados) que era como a polícia qualificava as vítimas do esquadrão.


Os repórteres conheciam e até conviviam no dia a dia de trabalho com os policiais do Esquadrão da Morte. Mas alguns divulgavam a ação do grupo como fosse uma coisa espontânea, inédita, que surgira de repente, do nada, para fazer a justiça. Isso ajudou a opinião pública na época a ficar entusiasmada com os relatos dos jornais sobre o esquadrão e a vender jornal. Criou-se um mito sobre o fim da impunidade na cidade.

Mais tarde, descobriu-se que o esquadrão da morte não era tudo aquilo que os jornais noticiavam. O grupo extorquia e vendia proteção para bandidos. Protegia traficantes que trabalhavam vendendo drogas para os policiais. Quem não pagava o pedágio para eles, morria. Matavam traficantes rivais daqueles aos quais davam proteção. O mais grave: a maior parte das pessoas mortas, eram de presos que estavam detidos à disposição da polícia no Presídio Tiradentes ou no Departamento Estadual de Investigações Criminais ( Deic), sem culpa formada. Ou algum desafeto dos policiais Eles eram retirados à noite da celas, para serem mortos na rua.


Passou pelo bar frequentado pelo esquadrão da morte


O repórter estava perdido nestas conjecturas sobre o esquadrão da morte, quando o motorista e o fotógrafo foram apanhá-lo no bar. Antes de seguir para o local do crime, combinaram dar uma volta pelo centro da cidade. O repórter queria passar em frente a um bar onde o pessoal do esquadrão da morte costumava se reunir para planejar os crimes ou depois de pratica-los. O bar ficava na avenida Duque de Caxias, em frente à praça Princesa Isabel, nos Campos Elíseos, onde, hoje, está espalhada a cracolandia de São Paulo. Naquela época,1969, ali ficava a chamada ‘boca do lixo’, área decadente da cidade, frequentada por prostitutas de todas as idades, traficantes de drogas, malandros, ladrões, travestis, gigolôs. A região era povoada por boates, inferninhos, dancing ( salões de dança nos quais os clientes compravam fichas para dançar com as mulheres) e bares que comercializam bebidas falsificadas. Além disso havia centenas de hotéis baratos e imundos, de curta permanência e alta rotatividade, cujos letreiros tinham apenas dois caracteres: o “HO” realçados, à noite, com uma luz branca forte.


Saíram da rua Sete de Abril, entraram na Dom José de Barros, ao lado do Teatro Municipal e do Viaduto do Chá, Largo do Paissandu, Avenida São João, Praça Júlio de Mesquita, onde ficava o Cine Oásis, o maior cinema da região, com sessões corridas de filmes até às quatro horas da manhã. O bar da Avenida Duque de Caxias onde o esquadrão da morte se reunia estava aberto e deserto naquela hora: 1h30m. Nem pararam para perguntar.


Chegaram no momento da execução

Seguiram para o endereço fornecido por Lírio Branco. Chegaram vinte minutos depois, pouco mais de uma hora após receberem o telefonema. Deixaram o carro com o motorista parado numa travessa próxima e caminharam na rua escura até o local do crime. Quando se aproximavam, ouviram diversos tiros vindos de dentro da casa. Tentaram retroceder. Foram impedidos pelos policiais que vigiavam do lado de fora. Os colegas dentro da casa foram avisados da presença da imprensa. Houve um princípio de correria e tumulto.


Três policiais saíram. Conheciam os jornalistas de reportagens no Deic. Aproximaram-se e, com as armas em punho, obrigaram os dois a entrar. Pensaram que seriam mortos, confessariam depois. No interior da residência, os outros policiais os reconheceram também. O comandante da “operação” apanhou dois revólveres. Entregou uma arma para o repórter e outra para o fotógrafo e ordenou: “Podem atirar. Querendo ou não, vocês também estão envolvidos”.


Atiraram nas três vítimas que ,alegaram depois, já estavam mortas. Sorte deles. O esquadrão da morte tinha um histórico de eliminar todas as testemunhas de seus crimes. Mas nunca fez nada contra o repórter e o fotógrafo. Os dois sempre evitaram falar no assunto. A não ser uma vez, em que o repórter bebeu demais e acabou revelando alguns detalhes numa conversa de bar. A história também vazou no Judiciário. Mas eles não foram denunciados e nem processados.

Os dois passaram muito tempo tentando entender o que acontecera naquela noite. Não compreendiam. Tinham chegado à residência quase duas horas depois do telefonema do “Lírio Branco”. Não era para que aquilo terminasse como terminou. A conclusão que chegaram é de que, como era um sábado de madrugada, o porta-voz do esquadrão da morte resolveu se antecipar à execução, imaginado que a reportagem só fosse aparecer no local do crime de manhã.


A história permanece até hoje, cinquenta anos depois, um assunto proibido até mesmo entre os velhos repórteres polícia.



45 visualizações

©2020 por Histórias mal contadas. Orgulhosamente criado com Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now