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  • Marcelo Faria de Barros

Fernando da Gata, o bandido das sete vidas


Morreu encostado a uma árvore. Seminu e sujo de terra e sangue ao lado de um revólver de cabo branco de calibre 38. Três cães farejadores o localizaram numa mata no bairro Pouso do Campo em Santa Rita do Sapucaí, sul de Minas Gerais. Era madrugada de 3 de setembro de 1982, sexta-feira. De corpo franzino e 1,65 metro de altura, a morte dele foi provocada por exaustão, cansaço extremo, atestariam os legistas, apesar de ferido com um tiro e uma facada. Um recorte da primeira página do jornal Notícias Populares de São Paulo ajudou a polícia na identificação. A manchete dizia: “A ordem agora é castrar Fernando da Gata”.

Fernando Soares Pereira, de 21 anos, o Fernando da Gata. Ladrão e maníaco sexual, vinha sendo caçado há meses pela polícia paulista, e depois pela mineira, por uma série de roubos e estupros. Na capital paulista, assaltou mansões nos Jardins e Morumbi. Estuprou dezenas de mulheres: mães e filhas, amigas de filhos, parentes. Audacioso, costumava atacar à noite. Escalava muros, telhados e janelas das mansões. Agia sozinho, sem camisa e descalço, com um revólver preso à cintura do calção.

Dizia que entrar sem camisa e descalço impedia que fosse atacado por cães ferozes. Na época, a moda entre alguns ricos era ter cães da raça Dobermann em casa. Nunca se intimidou ou foi atacado por eles. Com isso parte da mídia à época, 1982, alimentou a lenda de que Fernando da Gata tinha um pacto com o diabo. Nos roubos costumava trancar os homens em banheiros, enquanto violentava as mulheres. Exigia que as vítimas cozinhassem para ele. A polícia demorou para identificá-lo, pois Fernando Soares Pereira não tinha ficha criminal em São Paulo.

Bandido das sete vidas


Fernando da Gata era cearense da cidade de Russas, no Vale do Jaguaribe. Filho de uma modesta professora Maria da Paz Pereira, desde criança envolveu-se com a criminalidade. Pequenos furtos em casas e feiras livres. Adolescente, cheio de misticismo, dizia conhecer várias “rezas de proteção”, para ficar “invisível” diante dos inimigos, no caso, a polícia. Uma delas, a oração de São Francisco do Canindé, que carregava na carteira de plástico marrom.


“Meu glorioso São Francisco do Canindé, agradecido por todas as graças que alcançastes, venho lhe pedir proteção e que me deixe invisível perante meus inimigos”, dizia uma trecho da oração.

Antes de vir para São Paulo, em 1978, ficou conhecido no Nordeste por seus crimes e pelos apelidos: Fernando da Gata e bandido das sete vidas. Foi acusado de três homicídios, 27 estupros e diversos assaltos no Ceará, Paraíba e Rio Grande Norte. Costumava afrontar e desafiar os policiais. Chegou a ameaçar de morte um juiz no interior do Ceará. Os conhecidos afirmavam que “não tinha cadeia para ele”. Fugia sempre.

A própria mulher foi vítima de estupro

Uma de suas vítimas de estupro foi Maria de Fátima Felix da Silva, na época com 15 anos, com quem ele acabaria se casando. Maria de Fátima confessaria mais tarde ter-se casado por amor. Fernando da Gata tinha 17 anos quando chegou a São Paulo com a mulher, para trabalhar como servente de pedreiro. Não se tem notícia de algum crime praticado por ele nesta época. Teria voltado à criminalidade no segundo semestre de 1981, quando Maria de Fátima estava grávida de Vítor, único filho do casal.

A principal dificuldade da polícia para identificá-lo foi que Fernando Soares Pereira não tinha ficha criminal em São Paulo. Por isso ele continuou praticando os crimes e levando pânico sem ser incomodado. Em agosto de 1982, a polícia prendeu um receptador e encontrou com ele um anel roubado por Fernando da Gata de uma das vítimas de estupro. Pressionado, o receptador revelou o nome e o apelido do acusado. Garantiu que desconhecia o endereço, mas sabia que ele residia em Francisco Morato, na Grande São Paulo.

Ficha no posto de saúde

A polícia chegou à casa do estuprador a partir de um posto de saúde. Maria de Fátima frequentava o local para buscar leite para o filho. Os funcionários tinham a ficha com os nomes do casal, do filho e o endereço. No início da manhã de 20 de agosto de 1982, sexta-feira, oito policiais civis de Osasco, na Grande São Paulo, invadiram a casa do assaltante. O casal e o filho estavam na moradia. Houve troca de tiros. Mesmo baleado de raspão na perna, Fernando da Gata conseguiu escapar. No mesmo dia viajou para Minas Gerais.

No domingo seguinte a invasão da casa, o Fantástico mostrou a foto e contou a história de Fernando da Gata. Após a exibição, moradores de Pouso Alegre, Sul de Minas, comentaram ter visto o bandido na cidade. Era verdade. O assaltante voltou a praticar novos roubos e três estupros em Pouso Alegre. Espalharam-se o terror, a boataria, a fofoca e os trotes. Aproveitando-se do clima de medo, algumas pessoas começaram a passar trote nas outras. Agiam como se fossem Fernando da Gata. Um dos trotes provocou uma tragédia.

Pai mata a filha


Era 31 de agosto de 1982, terça-feira. Um voz masculina telefona de manhã para a casa do empresário Jair Siqueira, dono de uma indústria têxtil em Pouso Alegre. Dizia que era o Fernando da Gata e que a próxima vítima seria a família do empresário. A ligação causou grande apreensão. À noite, antes de dormir, Jair Siqueira colocou o revólver carregado na cabeceira da cama. De madrugada, uma das quatro filhas dele, Thaís, de 13 anos, assustada, não conseguia dormir depois de ter voltado da escola. Resolveu dormir no quarto dos pais. O barulho da porta abrindo no escuro, assustou o pai da garota. Siqueira apanhou revólver e disparou, atingindo Thaís. A garota deu um grito e falou: ”Ô, papai, eu vim para ver ver como você e a mamãe estavam”.


Desesperado, o homem jogou a arma num canto. Apanhou nos braços a filha que agonizava e a levou ao hospital com ajuda de um vizinho. Chegou morta. O pai teve de ser internado num hospital psiquiátrico. Nem chegou a ser preso ou processado. A morte de Thaís causou grande comoção. Moradores discutiram formar patrulhas civis para caçar o bandido. O padre e o delegado foram à rádio para pedir calma.


Interceptaram telefonema

Enquanto Thaís era enterrada, Fernando da Gata telefonou para Maria de Fátima em Francisco Morato. Pediu que a mulher, o filho e o advogado fossem encontrar-se com ele em Pouso Alegre. Queria entregar algumas jóias para Maria de Fátima vender e ter como se sustentar na ausência dele. Marcaram um encontro para o dia seguinte num posto de gasolina na rodovia Fernão Dias. Ela deveria estar no Fusca azul da família. Policiais paulistas interceptaram a ligação.


A polícia de Pouso Alegre foi avisada. Disfarçados de frentistas, vendedores de bilhetes, garçons e hippies, os policiais de São Paulo e Minas espalharam-se pelo posto de combustível. Fernando da Gata apareceu no horário marcado: 14 horas. Aproximou-se do posto caminhando. Viu o Fusca com a mulher, o filho e o advogado. Não suspeitava que um investigador estava deitado, entre os bancos do carro, com um revólver.

Deve ter pressentido alguma coisa estranha. Recuou e atravessou calmamente a rodovia. Um policial paulista pegou uma escopeta e subiu no pedestal de uma estátua de pedra do bandeirante Fernão Dias Paes. Apontou a arma. Na hora de atirar, perdeu o equilíbrio. Estatelou-se dentro uma fonte luminosa, cheia de água.

O bandido embrenhou-se numa mata fechada e cheia de cobras do outro lado da rodovia, para fugir da polícia. Seguiu em direção à Santa Rita do Sapucaí, distante 29 quilômetros. Pulou cercas e porteiras. No caminho foi esfaqueado ao tentar roubar a roupa de um bêbado que, também armado de um revólver, disparou duas vezes, sem atingi-lo. Num estrada de terra tentou roubar duas moças perto de uma fazenda e depois as roupas no varal de uma casa. Não conseguiu. Deixou pelo caminho uma sacola plástica com as roupas, um chapéu e um jornal.

Já era noite quando chegou a Santa Rita do Sapucaí. Para não chamar a atenção, atravessou a nado as águas geladas do rio Sapucaí, que corta a cidade. A distância entre as margens é de 30 metros. Nadou segurando o revólver na mão. Do outro lado, percebeu que havia vários policiais. Decidiu retornar a nado. Na outra margem deparou-se com outros policiais florestais. Um deles o reconheceu e atirou. Ferido, embrenhou-se de novo na mata, onde se escondeu até ser encontrado morto.

Velório tumultuado e cordel


O velório de Fernando da Gata foi tumultuado. Alguém arranjou um terno e uma gravata para o assaltante, que ficou exposto a visitação na garagem da delegacia de polícia de Pouso Alegre. Filas imensas se formaram. À época estimou-se que cerca de 60 mil pessoas, entre moradores de Pouso Alegre e cidade vizinhas, estiveram no velório. Houve tumulto e até ameaças de invasão da delegacia por populares, que queriam arrebatar e destruir o cadáver. O corpo teve de ser retirado de rabecão e levado ao cemitério onde foi enterrado numa cova rasa.

Uma semana depois, o corpo foi exumado. Segundo comentários, a polícia esquecera-se de colher as impressões digitais dele. Dias depois, nova exumação. Na tentativa de colher dividendos eleitorais, o então governador do Ceará Manuel Castro Filho (PDS), que tinha como base eleitoral o Vale do Jaguaribe, região onde fica Russas, onde nasceu Fernando da Gata, mandou um avião do governo do Ceará recolher o corpo do assaltante para ser sepultado em sua cidade natal.


Novos tumultos aconteceram. Pessoas desesperadas para ver o caixão do bandido, passaram a noite em frente ao portão e dentro do cemitério, esperando a chegada do corpo e o sepultamento. Romarias de caminhões paus de araras seguiram para Russas. A cidade parecia em festa. Bares cheios de pessoas comendo e bebendo. Fernando da Gata tornou-se uma lenda naquela região. Sua história virou tema de repentistas, poetas e literatura de cordel.


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