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  • Marcelo Faria de Barros

O último crime da ditadura militar


fotos: Correio Braziliense

O atirador de 1,90 metro, de chapéu e capa longa pretos, posicionou–se, nas sombras, atrás das pilastras do prédio da rádio. Carregava uma escopeta calibre 12 escondida dentro da capa e uma pistola 3.57 Magnum, na cintura. Era final da noite de 11 de novembro de 1984, um domingo. Chovia fraco. A região estava deserta. Exceto por dois carros na rua. Um Fusca branco, com o motor ligado, faróis apagados, motorista ao volante e um Fiat amarelo, com dois homens. Era a cobertura do homem escondido entre as pilastras. Mais distante, um terceiro carro, um Chevette preto, era ocupado por outros dois homens. Estavam parados no acesso a uma grande avenida. Na hora da execução, planejavam simular uma blitz policial. Bloqueariam um trecho da avenida para deixar o caminho livre para a fuga dos cúmplices.


O pistoleiro viu um funcionário da rádio saindo da portaria. Agitou-se. Percebeu que não era quem ele esperava. Ficou observando o funcionário seguir para o local onde deixara o carro. A vítima saiu logo depois. Por hábito, olhou para os lados. Caminhou lentamente até o estacionamento. Quando se aproximava de seu carro, o Monza branco, de placa BB-7777, o homem de capa e chapéu aproximou-se por trás e disparou um tiro com a escopeta calibre 12. O tiro derrubou o rapaz. O jornalista Mário Eugenio Rafael de Oliveira, “o Mário Eugenio”, de 31 anos, caiu ao lado do Monza. O atirador sacou a pistola Magnum da cintura e disparou mais seis tiros na cabeça da vítima.


O assassino correu para o Fusca branco, de motor ligado e faróis apagados, que o aguardava na rua. Abriu a porta do carro e entrou apressadamente. O colega que saíra da rádio segundos antes de Mário Eugenio, um operador de áudio, estava no seu carro. Viu o atirador entrar no Fusca branco. Descreveu-o mais tarde: um homem alto, com 1,90 metro, uma capa preta comprida até o tornozelo e um chapéu preto. Estava escuro. O funcionário da rádio não conseguiu anotar a placa. O Fusca e o Fiat amarelo da cobertura partiram em alta velocidade. Seguiram em direção ao acesso onde os cúmplices, no Chevette preto, simulavam a blitz policial. Fugiram no sentido da Praça do Buriti, em frente ao palácio do governo do Distrito Federal. Ali se separaram.


Atraídos pelo barulho dos tiros, dois vigias foram verificar o que estava acontecendo. Encontraram Mário Eugenio morto. A repercussão foi imediata. Rádios, jornais, televisões e agências de notícias foram avisadas. Boletins extras foram divulgados na mídia.


Jornalista Mário Eugenio

Aqui a notícia é do tamanho da verdade


O jornalista era muito conhecido. Trabalhava no jornal Correio Braziliense como editor de polícia e comandava o programa policial “Gogó da Sete”, na Rádio Planalto AM 890, de Brasília, de grande audiência nas manhãs. Abria o programa com o seguinte bordão: “Aqui a notícia é do tamanho da verdade”. Ele não andava armado. Tinha porte de arma, mas o revólver que possuía tinha sido apreendido pela Polícia Civil do Distrito Federal. A ordem de apreensão partira do secretário de Segurança Pública, o coronel do Exército Lauro Rieth, um desafeto de Mário Eugenio, por causa das críticas à área de segurança. A alegação: aquele tipo de arma era privativa das Forças Armadas.


Na noite daquele domingo, 11 de novembro, Mário Eugenio tinha ido gravar o programa que iria ao ar na manhã do dia seguinte. A morte do jornalista causou comoção e revolta. Ocupou o noticiário nacional e internacional. Desde o início, a polícia alegou não ter pistas dos assassinos. A sensação generalizada era de que seria mais um crime que permaneceria insolúvel, no limbo, como muitos ocorridos durante o período do regime militar, a maioria nunca esclarecido. Semelhante ao que ocorre agora no caso Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.


Na época do crime, o governo militar brasileiro agonizava. Inflação e custo de vida altos, desemprego, impunidade. Denúncias de torturas e assassinatos de opositores políticos. O chamado “milagre brasileiro”, período de prosperidade no início do governo militar, naufragara definitivamente. A população ansiava por mudanças na política. Respirar ares de liberdade. Dois meses depois do assassinato do jornalista, Tancredo Neves seria eleito presidente da República pelo voto indireto por um colégio eleitoral, numa disputa com o ex-governador de São Paulo Paulo Maluf. Tancredo seria o primeiro presidente civil a assumir o cargo em 20 anos.


Seria o início da Nova República, que prometia mudanças radicais no País. Na véspera da posse, em março, Tancredo Neves teve de ser operado de urgência de uma diverticulite. José Sarney , o vice, assumiu interinamente. Tancredo morreria um mês de depois, em São Paulo. Sarney virou presidente. Ele indicou José Aparecido de Oliveira, um respeitado político mineiro, para governar o Distrito Federal. Por ser considerado área de segurança nacional, o governador do Distrito Federal, na época, era escolhido e nomeado pelo presidente da República.


Esquadrão da Morte


Quando José Aparecido assumiu, só o Jornal Correio Braziliense ainda investigava a morte de Mário Eugenio. As apurações estava paradas na polícia. O caso tinha deixado de ser prioridade para a imprensa. O Correio Braziliense descobriu que Mário Eugenio tinha identificado um grupo de extermínio, um esquadrão da morte no Distrito Federal, integrado por policiais civis e militares do Exército. A quadrilha estava envolvidas em execuções, roubos e furtos de carros, que eram vendidos na Bolívia e Paraguai, e outros delitos. O jornalista ameaçava denunciar toda a história. Chegou a escrever uma série de reportagens no jornal, contando o envolvimento do bando na morte, por engano, de um chacareiro, numa cidade próxima a Brasília. O chacareiro foi assassinado ao ser confundido com o ladrão do carro de um tenente do Exército.


Na rádio, ele prometia divulgar uma reportagem “que abalaria as estruturas do poder em Brasília”, insinuando a conivência e a participação de altas autoridades do poder nos crimes.


Policiais de São Paulo


Ao tomar posse, José Aparecido de Oliveira resolveu fazer uma devassa na polícia do Distrito Federal. Demitiu o antigo secretário de Segurança Pública, o coronel Lauro Rieth, e nomeou para seu lugar outro coronel do Exército: José Olavo de Castro.


José Aparecido de Oliveira tomou outra providência: pediu ajuda ao então governador de São Paulo, Franco Montoro, para tentar esclarecer o assassinato do jornalista Mário Eugenio. Uma equipe de dois delegados e dois investigadores foi designada para o caso. A equipe era chefiada pelo delegado Anivaldo Registo. Os dois investigadores Seino e Garrido eram experientes e respeitadíssimos na Polícia Civil de São Paulo. Tinham trabalhado na apuração de grandes casos de sequestro, latrocínios e roubos com reféns.


Garrido declararia ao final da investigação: “Como não conhecíamos os colegas de Brasília, ficou mais fácil trabalhar. Não tínhamos vínculos e isso impedia qualquer tipo de pressão ou interferência”.


Quartel do Exército


Os policiais paulistas retomaram as investigações do início. Ouviram conhecidos, colegas, amigos e chefes de Mário Eugenio, e os suspeitos. Chegaram aos autores do crime: três policiais civis e três militares do Exército. Eles tinham como base de operação, o quartel do Pelotão de Investigações Criminais (PIC) da Polícia do Exército, onde se reuniam para planejar os crimes.


O grupo era comandado pelo sargento do Exército Antonio Nazareno Mortari Vieira, o “Nazareno”. O nome dele já havia aparecido, anteriormente, nas listas de torturadores do regime militar. Os cabos Aurelino Silvino de Oliveira e David Antonio Couto, todos do PIC. E os policiais civis Divino José de Matos, o “Divino 45” , Iracildo José de Oliveira, chefe de seção de roubos, da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos, e o agente Moacir Loyola Assunção.


O Ministério do Exército na época era comandado pelo general Leonidas Pires Gonçalves. O governo do Distrito Federal e a equipe de São Paulo tiveram todo o apoio do órgão para realizar as investigações.


Seino e Garrido já tinha ouvido Nazareno antes. Eles voltaram ao quartel do PIC para prendê-lo. Na hora da prisão, Garrido aproximou-se de sargento e disse: “Nazareno, nós sabemos de tudo, do seu envolvimento e dos outros na morte do Mário Eugenio, vem com a gente na moral”. O militar respondeu: “Está certo, seu Garrido, vou com senhor, numa boa”. Na moral significava: sem resistência.


Detalhou a dinamica do crime


Nazareno confessou o crime. Disse que a execução de Mário Eugenio foi chamada de “Operação Leite”, referência a uma marca de leite que havia em Brasília naquela época chamada “Gogó” e ao programa de rádio que o jornalista comandava : o “Gogó da Sete”.

Na noite do crime, eles se reuniram numa praça em frente ao Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal. Chegaram a ser parados por um patrulha da PM. Estavam em dois carros. O Chevette preto e o Fusca branco, que seriam usados, posteriormente, na ação contra o jornalista. Os carros pertenciam ao Exército. Para os Pms da patrulha, disseram que estavam ali numa missão secreta. Foram liberados. Resolveram buscar um terceiro veículo para a operação. Nazareno ligou para o quartel do PIC e conseguiu o Fiat amarelo. A partir daí, passaram a monitorar o jornalista.


Viram Mário Eugenio chegar ao prédio do Correio Braziliense, para trabalhar. Ficaram de campana. Passava de 22 horas, quando Mário Eugenio saiu. Ele foi de carro até a Rádio Planalto para gravar o programa do dia seguinte. FoI seguido pelos três carros.


Estacionaram próximo ao prédio da emissora. Nazareno e o policial civil Iracildo Oliveira estavam no Fiat amarelo. O cabo David Antonio Couto ao volante do Fusca branco e o policial Divino José de Matos, o “Divino 45”, referência à arma que ele gostava de portar, no banco do passageiro. O cabo Aurelino Silvino de Oliveira e o policial civil Moacir Loyola Assunção seguiram no Chevette preto, para o acesso à avenida para "armar" a falsa blitz policial. Nazareno confessou que foi “Divino 45” quem emboscou e matou Mário Eugenio.


Lavaram a capa


Após a execução do jornalista, o grupo se dividiu. O Chevette foi para a praça em frente ao Palácio do Buriti. Os outros dois carros para o quartel do Pelotão de Investigações Criminais (PIC) da Polícia do Exército. Divino lavou a capa que estava suja com o sangue de Mário Eugenio. Desfez dos estojos de bala. Recolheu a capa, uma peruca, chapéu e as armas. Fez um um embrulho e entregou a Nazareno. As armas foram atiradas no Lago Paranoá, em Brasília. Os demais objetos foram escondidos pelo cabo Aurelino da Silveira, numa residência numa cidade próxima.


Divino 45 só foi condenado em 2001 a 14 anos de prisão. Como estava afastado do trabalho com um atestado médico por problemas mentais, na época do crime, os advogados travaram uma longa batalha judicial para tirá-lo da cena do crime. Em 2004, por ordem do STJ, foi levado à prisão. Cumpriu quatro anos de pena no Complexo Penitenciário da Papuda, na ala destinada a policiais que cometem crimes. Quatro anos depois ganhou o direito do semiaberto e logo depois, a liberdade condicional. Todos os demais envolvidos foram condenados. O policial Iracildo Jose de Oliveira, da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos, doente, morreu na prisão enquanto cumpria pena.


O agente Moacir Loyola Assunção foi preso mas não chegou a ser julgado pela morte de Mário Eugenio. Foi encontrado morto na cela, um dia depois de prestar depoimento e denunciar o sargento Nazareno e o policial Iracildo de Oliveira pela morte, por engano, do chacareiro, que suspeitavam ter roubado o carro de um tenente do PIC. A versão para a morte de Loyola foi suicídio.


O coronel do Exército Lauro Riet, ex-secretário de Segurança do Distrito Federal, e o delegado Ary Sardella foram denunciando como mandantes da execução de Mário Eugenio. Um dos indícios contra Rieth foi a ordem que dera de apreensão da arma do jornalista, alguns meses antes do crime. Chegou a ter a prisão preventiva decretada. Os advogados de Rieth entraram com dois habeas corpus no STF. O primeiro alegando que não havia indícios suficientes de provas contra o cliente nos autos. Outro pedindo que fosse julgado em foro especial por prerrogativa da função. O primeiro pedido foi negado. O segundo foi aceito. A denúncia tinha sido feita por um promotor criminal. Foi considerada inválida por conta do foro especial. Decidiu-se que somente o procurador-geral na época do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, Geraldo Nunes, teria competência para formular a acusação. Nunes decidiu pelo arquivamento do processo contra o coronel. O arquivamento acabou beneficiando o delegado Ary Sardella, que também não foi julgado por estar no mesmo processo.



Sargento Antonio Nazareno- Foto Yuugi Makiuchi

Cartões de Natal


Ao terminar a participação dos policiais de São Paulo nas investigações, Nazareno, preso, pediu para falar com os dois investigadores que o prenderam. Agradeceu muito por tê-los conhecidos e pela forma como o trataram. Pediu o endereço de Garrido. Tratou-o como se fosse um amigo. Nazareno foi condenado a 34 anos de prisão por crimes cometidos entre abril e novembro de 1984, entre os quais a morte de Mário Eugenio. Houve a unificação das penas. Com um indulto, a condenação caiu para 24 anos, que ele terminou de cumprir em janeiro de 2009. Em 2010, voltou a ser condenado a 23 anos por outros crimes praticados em Goiás, ainda em 1984, mesmo período da morte do jornalista. O STJ determinou que ele cumprisse integralmente a condenação em regime fechado.


Nos primeiros anos de prisão, Nazareno nunca se esqueceu de Garrido. Todos os anos, no Natal, enviava um cartão desejando boas festas para o policial e sua família.


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