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  • Marcelo Faria de Barros

Rádio nazista já acusava Brasil de servir aos EUA


O barulho seco do ferrolho da grade sobressaltou os dois prisioneiros políticos: Hermann Gürtler, acadêmico polonês, e o barítono brasileiro Emílio Baldino, de 39 anos, nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Eles dividiam uma cela na antiga Penitenciária de San Vittore, na Piazza Filangieri, centro de Milão, na Itália. Era final do mês de setembro de 1944. Desde a capitulação da Itália, em 1943, a penitenciária San Vittore estava sob o controle das tropas nazistas, que ainda ocupavam algumas regiões do país. A prisão abrigava dissidentes políticos em trânsito para os campos de concentração na Alemanha.

Hermann Gürtler estava preso por ser um ferrenho antinazista e membro da resistência na Itália. Baldino alegaria mais tarde ter sido preso por ser estrangeiro. O brasileiro tinha embarcado para a Itália em 1939, para estudar canto e colocação de voz. Morava em Milão quando foi surpreendido pelo início da segunda guerra. Teria ficado impedido de voltar ao Brasil. Documentos apreendidos no Brasil após o fim da guerra, porém, mostrariam que o barítono, em 1937, filiara-se à Ação Integralista Brasileira, partido de extrema-direita fundado por Plinio Salgado. Os integralistas seguiam as idéias do fascismo italiano de Benito Mussolini. A ficha de inscrição de Baldino tinha o número 1974.

Naquela tarde de setembro de 1944, três homens entraram na cela de Baldino e Gürtler. Um tenente e um sargento, fardados e com as insígnias da SS (schutzstaffel), guarda de elite do regime nazista, e um civil. Estavam ali para falar com o brasileiro. Identificaram-se : tenente Anelmann Alta e sargento Kreuzer. O civil era o italiano Felício Mastrangelo, de 53 anos, radialista, que havia trabalhado no Brasil entre 1930 e 1942, nas rádios Mayrinck Veiga, Ipanema e rádio Clube do Brasil, todas no Rio de Janeiro. Mastrangelo conhecia o barítono de apresentações no rádio e o indicara para os dois nazistas.

Os dois militares foram oferecer um emprego para o brasileiro. Queriam que Baldino fosse trabalhar numa emissora de rádio que eles estavam montando na Itália, com transmissão em português. Seria um dos locutores e também redator e tradutor do noticiário político, enviado pelo governo nazista de Berlim para a Itália. Baldino iria transmitir mensagens dos nazistas, em português, para as tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutavam na Itália. Receberia um salário de 16 mil liras italianas, o equivalente hoje a cerca de R$ 6 mil. Por ser barítono, se quisesse, poderia até cantar nos programas.

A oferta de emprego veio com uma ameaça: se não aceitasse seria imediatamente enviado a um campo de concentração na Alemanha. Aceitou. Esta decisão lhe traria muitos problemas no futuro: seria acusado de espionagem e de traição à pátria.


“Auriverde”


A rádio “Auriverde” iniciou suas transmissões em dezembro de 1944. A sede ficava na comuna de Fino Mornasco, província de Como, região da Lombardia, Norte da Itália, quase na fronteira com a Suíça. Baldino e o italiano Felício Mastrangelo, que falava bem o português, eram locutores oficiais. A paulistana Margarida Hirschmann, conhecida por “Iracema”, que começara como taquígrafa, com o tempo, tornou-se também locutora, divulgando a parte musical da programação. Trabalhavam sob o comando direto do tenente Anelmann Alta e do sargento Kreuser.


Um soldado brasileiro, Antonio Ribeiro da Silva, de 25 anos, da cidade de Tambaú-SP, que servira no 3.o Batalhão do 6.o Regimento de Infantaria da FEB, até ser feito prisioneiro na Itália, foi “designado” também para trabalhar para os nazistas na rádio. Passou a cuidar da discoteca e ainda cozinhar, lavar louças, cortar lenha, engraxar as botas, lavar e passar as roupas do tenente e do sargento. Com um agravante: vestido com a farda do Exército

brasileiro, por imposição dos alemães.

Eram três programas diários dedicados, como dizia a vinheta, “ao expedicionário brasileiro na Itália”. Chamava-se “A hora auriverde”. Além de música brasileira, transmitiam o noticiário sobre a guerra de maneira deturpada com críticas aos aliados, ao governo e aos comandantes militares brasileiros. Pregavam abertamente a deserção e a capitulação das tropas brasileiras na Itália.


Café Nice


A programação aos domingos era encerrada com um quadro chamado “Café Nice”. Instalado em plena na Avenida Rio Branco,174, e inaugurado em 1928, o Café Nice, na época da Segunda Guerra, era o bar da moda no Rio de Janeiro, então capital federal. Reunia a boemia formada por jornalistas, escritores, atores, cantores, compositores e artistas de rádio. Noel Rosa, Cartola, Pixinguinha, Lamartine Babo, Braguinha eram alguns dos frequentadores. Lugar de discussão e difusão de idéias, funcionou até meados dos anos 50.

Sabedores da fama do estabelecimento, os nazistas decidiram fazer esquetes (peças de curta duração, geralmente cômicas) tendo como cenário o Café Nice, com críticas e ironias para desmoralizar os soldados brasileiros e os aliados.


“Brasil enjaulado na gaiola de ouro dos EUA”


Utilizando-se de muitas gírias brasileiras, atacavam o governo brasileiro e os comandantes da FEB por sua postura de dependência servil aos Estados Unidos. “Brasil é um papagaio enjaulado na gaiola de ouro dos EUA”, dizia um dos locutores. Afirmavam também: “não haver razão para o Brasil participar da guerra e atribuíam o envolvimento no conflito a uma imposição dos EUA”. Criticavam a ineficiência e falta espírito de combatividade dos soldados e dos comandantes. Apelavam ainda para o sentimentalismo, denunciando que os pracinhas enfrentavam “agruras” por causa do frio na Europa, em razão de a tropa não estar suficientemente equipada”.

O governo de Getúlio Vargas e os comandantes militares da FEB também era constantemente atacados por sua servidão aos americanos. A rádio exibiu ainda depoimentos gravados com prisioneiros de guerra brasileiros, citando os nomes deles e de parentes no Brasil, os quais revelavam que, embora presos, “estavam recebendo” tratamento digno por parte dos nazistas.


Fuga às pressas


A emissora funcionou até quase o final do mês de abril de 1945. Com a aproximação do final da guerra na Europa, o tenente Anelmann Alta e o sargento Kreuser decidiram fugir às pressas para a Alemanha. Deixaram para trás equipamentos e parte dos arquivos da programação. O soldado Antonio Ribeiro da Silva, que fazia os serviços domésticos para eles, foi obrigado a seguir para a Alemanha. Na comuna de Trento, quase na fronteira com a Áustria, porém, Silva escapou, refugiando-se, até o final da guerra, na casa de um “partigiano”, membro da resistência italiana contra a ocupação nazista. Com o fim das hostilidades, Silva entregou-se às autoridades americanas.


Emilio Baldino e Margarida Hirschmann foram presos em junho de 1945 pela resistência italiana, sob a suspeita de espionagem. Na rádio foram encontrados panfletos que pregavam a deserção dos soldados brasileiros e atacavam a relação do Brasil com os Estados Unidos. Levados ao comando das tropas inglesas e americanas, foram entregues às autoridades da FEB na Itália. O comandante na época era o então general de divisão e mais tarde marechal João Batista Mascarenhas de Morais, que mandou instaurar inquérito policial militar.


Vaiados

Emilio Baldino ficou recolhido no Carceri Centrali e Margarida Hirschmann no Carceri Giudiziari Per Done, ambos na cidade de Nápoles. Em 7 de julho de 1945, o major Hélio Peres Braga, encarregado do inquérito, concluiu suas investigações e pediu a prisão preventiva dos acusados pelo crime de traição. O presidente do inquérito, tenente-coronel auditor Eugenio Carvalho do Nascimento, aceitou o pedido e decretou a preventiva.


Em 22 de setembro de 1945, Baldino e Margarida foram trazidos para o Brasil, para continuarem respondendo ao processo. Ao embarcarem no mesmo navio que trazia de volta parte dos pracinhas foram estrepitosamente vaiados.


Réus por espionagem e por levantar armas contra o Brasil no processo instalado na Justiça Militar, permaneceram presos no extinto complexo penitenciário da Frei Caneca, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Se fossem condenados pelos crimes dos quais eram acusados poderiam receber pena de morte por fuzilamento ou 30 anos de prisão.

No Brasil, foram defendidos pelo advogado Evandro Lins e Silva. Durante a instrução, depoimentos testemunhais, principalmente do soldado que foi obrigado a fazer serviços domésticos para os nazistas na rádio, favoreceram Baldino. O barítono sempre alegou ter sido obrigado trabalhar para os nazistas, para não ser mandado para um campo de concentração.

O julgamento foi marcado para 18 de julho de 1946. Baldino e Margarida foram absolvidos e colocados em liberdade. A promotoria recorreu. O Superior Tribunal Militar (STM) acabou revendo a decisão e os condenou a 20 anos de prisão. Margarida voltou à prisão. Só seria libertada em 1949, após ter a pena comutada. Baldino desapareceu após ser solto no primeiro julgamento. Nunca mais foi preso ou se soube de seu paradeiro. Segundo versões, teria fugido para a Argentina onde teria morado até o fim de seus dias.





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