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  • Marcelo Faria de Barros

Sequestrador filósofo e o fusca vermelho




O rapaz seguia de carro sozinho pela Avenida do Estado, na região central de São Paulo. Morava na região do ABC paulista e estava indo para a faculdade na zona oeste. Era uma manhã ensolarada. Na altura do prédio da antiga Cervejaria Antárctica e da fábrica de Chiclete Adams, parou no semáforo. Enquanto aguardava, olhou pelo espelho retrovisor. Observou que somente um fusca vermelho, com o motorista e um acompanhante, estava parado atrás. Prosseguiu a viagem. Notou que o fusca continuava seguindo o seu carro. Próximo da faculdade, o motorista do carro vermelho deu seta e ultrapassou o veículo do estudante.


À noite, o rapaz, que era filho do dono de um frigorífico, apanhou a namorada em casa. Foram jantar num restaurante em Santana, na zona norte da capital. Na hora de estacionar, ele viu o mesmo fusca vermelho da manhã. “ Olha que estranho, disse. É o mesmo fusca que vi de manhã”. Explicou rapidamente para namorada o que havia acontecido pela manhã, enquanto desligava o carro. A garota também estranhou a história. Apanhou uma caneta na bolsa e um papel no porta-luvas. Anotou a placa do fusca. Guardou o papel e a caneta na bolsa. E explicou: “É só por precaução”.

Os dois homens pressentiram que o casal poderia ter notado a presença deles. Esperaram o rapaz e a namorada entrar no restaurante e foram embora. Mais tarde, quando os namorados voltaram ao estacionamento, não viram o fusca. A garota brincou: “Viu como era voce que estava cismado”.


Na mesma semana, quando retornava da faculdade, o rapaz foi sequestrado na Praça Panamericana, na zona oeste. O carro dele foi fechado na rua. Dois homens desceram armados e o arrancaram do veículo. Uma hora mais tarde, a família recebeu o primeiro telefonema comunicando o sequestro e avisando onde tinha deixado o carro da vítima. O que chamou a atenção dos parentes é que o sequestrador tinha sotaque castelhano e aparentava falar fluentemente o espanhol. Para a polícia, o detalhe do sotaque não tinha muita importância. Normalmente o sequestrador usa a estratégia de mudar de idioma, dar a idéia de integrar uma quadrilha internacional de seqüestradores profissionais.


Começava o sofrimento da família. Horas de angústia ao lado do telefone. Por coincidência neste período, 1983, uma série de sequestros vinha acontecendo na capital paulista. A polícia tomou as providencias de praxe: grampeou os telefones da casa, periciou o carro do rapaz em busca de impressões digitais; ouviu os parentes para saber se a vítima tinha algum inimigo e pediu ajuda aos informantes do chamado submundo do crime, conhecidos como “gansos”.


Pediu também uma prova de vida: a vítima tinha que dizer qual era nome da melhor amiga de uma tia-avó que morava em Portugal. A resposta certa seria a confirmação de que ele continuava vivo depois ter sido arrebatado. A polícia ficou na expectativa da chegada, pelo correio, de alguma mensagem preparada com recortes de letras de jornal, com o pedido de resgate. Queria procurar impressões digitais.


A namorada foi ouvida. Muito abalada, nada acrescentou. Enquanto os policiais faziam diligências, a família ficou aguardando novos contatos do sequestrador com o pedido de resgate. Uma manhã, a namorada lembrou-se da história do fusca vermelho. Remexeu a bolsa e encontrou o papel onde anotara a placa. Entregou-o à polícia. O delegado pesquisou a placa. Verificou que não tinha caráter geral, na gíria policial: não havia registro de furto ou roubo. Foi atrás do dono do carro. Quando o localizou, ele explicou que havia vendido o fusca para um casal uruguaio. Forneceu o telefone e o endereço.


O casal foi preso. A mulher estava grávida, prestes a dar a luz. Em princípio os dois negaram participação no sequestro. O interrogatório se estendeu o dia todo. De madrugada, cansado, o marido resolveu confessar o crime e indicou o endereço do cativeiro: um prédio pequeno em frente a uma delegacia de polícia, na zona sul de São Paulo.


Os policiais civis invadiram o apartamento. Surpreenderam os seqüestradores - três homens e uma mulher - dormindo. A vítima estava amordaçada, com os olhos vendados e acorrentada a uma cama. Não houve reação dos seqüestradores. A polícia descobriria posteriormente que esta quadrilha, formada por quatro argentinos e dois uruguaios, fora responsável por quase 30 sequestros na capital paulista em 1983.


Ao ser preso, um dos sequestradores, o argentino Juan Bautista Mancuso, o mais velho deles, não lamentou. Virou-se para o delegado e filosofou : “En la vida si ganas o pierdes; ahora se perdió”.

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