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  • Marcelo Faria de Barros

Sequestro e morte de milionário chinês nos anos 50


O Plymouth Chrysler vermelho, de duas portas, entrou lentamente pela rua Conselheiro Torres Homem, bairro Jardim América, área nobre de São Paulo. Noite de 5 de outubro de 1958, um domingo. A rua, sombreada por árvores frondosas e centenárias, estava deserta e mal iluminada pelas luzes amareladas dos antigos postes de ferro com as velhas lâmpadas incandescentes. O carro estacionou em frente a uma das mansões. Dois homens desceram. Carregavam revólveres e evitaram bater as portas do carro. Não queriam chamar a atenção de vizinhos. Um terceiro homem ficou parado, dando cobertura, logo atrás, dentro de um Chevrolet Impala branco, 1957.

O dono da mansão, o milionário chinês Lee Ching Dea, de 63 anos, na sala, acomodado numa poltrona de couro marrom, folheava um jornal de Xangai. Estava sozinho. Acabara de beber um suco de melancia trazido pela governanta Tat Sing, que fora dormir. Os dois sequestradores não tiveram dificuldade para entrar. Tinham as chaves do portão de ferro e da porta de madeira maciça, que dava acesso ao interior da casa. Surgiram de repente na frente da vítima, como se diz na gíria policial, de “cara limpa”. Sem máscaras.

O chinês reconheceu um dos homens. Era o ex-motorista da família: Chao Yen Shie, o Tony Shie, também de origem chinesa, demitido havia algum tempo. Ao ser contratado, apresentou carta de recomendação onde constava que ele tinha lutado ao lado das tropas americanas na Guerra da Coréia, entre 1950 e 1953. Passado o conflito, passou a receber um soldo do governo americano. Tony Shie” sabia que Lee Ching Dea falava muito mal o português. Explicou em chinês ao ex-patrão que ele estava sendo sequestrado, enquanto o cúmplice, o japonês Yuzo Arii, mostrava-lhe um revólver.

Pei Tsu Chin, o Joseph Pei, secretário particular e contador havia dez anos de Lee Ching Dea, entrou na sala no momento em que o patrão era dominado. Mostrou-se surpreso ao deparar-se com a cena. Foi subjugado também. Os acusados roubaram talões de cheques e documentos do escritório do dono da mansão e arrastaram as vítimas para fora da casa. Foram obrigadas a entrar no banco traseiro do Plymouth. O carro seguiu por um caminho de pouco movimento até a rua Capitão Guedes Portilho, Itaim-Bibi, bairro de classe média alta, na zona Sul.

O veículo estacionou em frente a uma casa térrea, com muros altos. O imóvel fora alugado temporariamente pela quadrilha para servir de cativeiro. Um terceiro sequestrador Chen Hui Ming, de 38 anos, os aguardava. Lin Fu Chou, que estava na cobertura com o Chevrolet Impala, apareceu logo depois. Lin Fu Chou fugia ao padrão da marginalidade. Era poliglota: falava cinco idiomas.

Milionário


Lee Ching Dea, a vítima de sequestro, era figura proeminente no cenário industrial em Hong Kong, na China. Nascido em Xangai, formado em engenharia química, começou a carreira, trabalhando numa fábrica de sabão alemã em Xangai. Com o tempo montou o seu próprio negócio, aliás vários negócios. Fundou empresas como a Majestic Chemical Works, a Union Perfumary Industries, a Paris Perfumaria e a Eagle de óleos essenciais.


Tornou-se o único fabricante de sabão em Hong Kong na década de 1940. Produzia também sabonetes, sabonetes medicinais, pastas de dente, perfumes, óleos essenciais. Uma das fábricas em Hong Kong chegou a produzir diariamente 300 caixas de sabonetes, com 12 dúzias cada. Lee Ching Dea expandiu os negócios pela China e no exterior, criando filiais em Xangai, Cantão, Taipé (Taiwan), Cingapura, Coréia, Tailândia e nos Estados Unidos. Em 1956, veio ao Brasil com a intenção de montar uma fábrica de óleos essenciais. Passava temporadas em São Paulo, enquanto a mulher Zao Hwa Lee e dois filhos, Christian e Nancy, cuidavam dos negócios.


Secretário envolvido


No cativeiro Lee Ching Dea foi obrigado a assinar cheques em branco e outro no valor de 90 mil cruzeiros, saldo total de uma conta em um banco em São Paulo. O secretário particular Joseph Pei redigiu em inglês uma carta na qual Lee Ching Dea autorizava um banco da Califórnia, nos Estados Unidos, a vender todas as suas ações e depositar o dinheiro na conta dele. As ações, na época, estariam cotadas em U$ 500 mil. A Polícia Civil de São Paulo descobriria mais tarde que o secretário particular participara efetivamente do plano de sequestro. Fornecera as informações contábeis e também as chaves da casa para a entrada dos cúmplices. A família de Lee Ching Dea sempre contestou esta versão. Joseph Pei era formado em contabilidade pela Universidade pública de Soochow, na China, e sempre acompanhava o patrão nas viagens.


Após a “assinatura” dos cheques e da carta, patrão e secretário foram trancados num quarto, com pés e mãos amarrados e amordaçados com esparadrapo. Chen Hui Ming, o sequestrador que já estava casa, ficou encarregado de vigiá-los. De manhã, Tony Shie viajou de carro para o Rio de Janeiro, para devolver o Plymouth à locadora. Carros alugados, com placas de outro estado, faziam parte do plano para despistar a polícia. Na capital federal, o ex-motorista do milionário atrapalhou-se com a burocracia e só conseguiu ônibus para voltar a São Paulo, no começo da noite, com a chegada prevista para o início da madrugada.


Sequestrador mata cúmplice


Lin Fu Shou e o japonês Yuzo Arii permaneceram no cativeiro durante a manhã de segunda-feira. Após o almoço, saíram para descontar o cheque de 90 mil cruzeiros. Aproveitariam para enviar a carta ao banco americano, assinada pela vítima, com a autorização para a venda das ações. Chen Hui Ming, carcereiro encarregado da vigilância do cativeiro, mostrou-se compreensivo. Permitiu que os reféns tirassem as mordaças. A polícia supõe que Lee Ching Dea aproveitou-se disso e teria feito alguma proposta financeira ao sequestrador, em troca da liberdade dele e do secretário. Este seria o motivo de Chen Hui Ming ter relaxado as normas da segurança.


Os dois cúmplices retornaram da rua começo da noite. Carregavam os 90 mil cruzeiros numa pasta de plástico preta, comprada de um camelô na Praça da Sé. Viram as vítimas sem as mordaças. Ficaram extremamente irritados e discutiram com Chen Hu Ming. Culparam-no de ser negligente. Temiam que os reféns começassem a gritar por socorro, atraindo a atenção dos vizinhos. O clima ficou bastante pesado. Sem conseguir disfarçar a raiva e de forma brusca, Lin Fu Shou e Yuzo Arii amordaçaram e trancaram novamente as vítimas no quarto. Não perceberam que, na pressa, acabaram tapando não só a boca como o nariz do secretário Joseph Pei. Ele morreu asfixiado. Só perceberam o erro quando foram levar comida e o encontraram morto. Uma morte lenta e silenciosa, diriam os legistas.


Outra discussão violenta, com mútuas recriminações, entre os sequestradores. O vigia do cativeiro Chen Hu Ming sacou um revólver e tentou matar os cúmplices. As balas não acertaram Lin Fu Shou. Feriram de raspão, no nariz e no antebraço esquerdo, Yuzo Arii. Os dois homens entraram em luta corporal na tentativa de desarmar o cúmplice. Yuzo Arii deu uma gravata (mata-leão) em Chen Hu Ming, matando-o por esganadura.


Relógio marca a hora da morte


Transtornados, os dois homens decidiram assassinar Lee Ching Dea. Não queriam deixar testemunhas. A vítima reagiu e lutou com eles, mesmo com pés e mãos amarrados e amordaçado. Caíram ao chão. O vidro do relógio do empresário espatifou-se na queda. Eram 23h40 de 6 de outubro de 1958. O relógio parou de funcionar neste horário. Enquanto Yuzo Arii segurava a vítima, Lin Fu Shou puxou um lençol dobrado sobre a cama. Enrolou no pescoço do milionário e o estrangulou. O detalhe do horário livraria, posteriormente, o sequestrador Tony Shie da acusação de triplo homicídio. Os advogados conseguiram provar que ele chegara da viagem ao Rio de Janeiro às 24h15 do dia 7 de outubro, depois da consumação dos três homicídios. A empresa de ônibus confirmou a data e horário de chegada.


Quando Tony Shie apareceu na residência, Lin Fu Shou e Yuzo Arii estavam enrolando em cobertores o secretário e o patrão, ainda amarrados e amordaçados. Os três repetiram o mesmo ritual com o cúmplice Chen Hui Ming. Ele foi amarrado e amordaçado como se, morto, ainda pudesse gritar por socorro. Na manhã seguinte compraram três baús numa loja da Praça da Sé, onde colocaram os corpos. À noite, atiraram os volumes, amarrados com pesos, no Rio Pinheiros, na altura da Ponte de Interlagos, zona Sul. Como já tinham divididos os 90 mil cruzeiros do cheque descontado da conta do milionário, fugiram de carro para Niterói, no Rio de Janeiro. Separaram-se.


Baús encontrados


No dia 9 de outubro de 1958, quinta-feira, o funcionário de uma subestação da Light encontrou, no Rio Pinheiros, o baú com o corpo do milionário Lee Ching Dea. Dois dias depois foi localizado o baú com o corpo do secretário Joseph Pei, a 10 quilômetros de distância do primeiro. A polícia identificou os corpos e chegou aos criminosos com a ajuda da governanta e dos vizinhos da casa que serviu de cativeiro. Vizinhos contaram ter ouvido uma discussão e tiros.


Tony Shei foi reconhecido pelas fotos de jornais e preso quando tentava negociar uma compra de terras em Goiás. Revelou para a polícia a existência de um terceiro baú com o corpo do sequestrador Chen Hu Ming. A caixa foi encontrada pelos bombeiros no leito do Rio Pinheiros. Lin Fu Shou foi preso na Bolívia, dois meses após os crimes e condenado a 22 anos de reclusão. Tony Shie recebeu uma pena menor: 7 anos de prisão por crimes de extorsão e ocultação de cadáver. Yuzo Arii nunca foi preso.


Nome de escola

Lee Ching Dea até hoje é lembrado na China. Em Hong Kong foi criado o Lee Ching Dea Memorial College em sua homenagem. Existe uma escola secundária com o nome dele, ligada a um grupo hospitalar da rede Tu Wah, muito conhecida naquele país. Budista fervorosa, Zao Hwa Lee, viúva do milionário, antes de morrer, dedicou-se a filantropia, fazendo campanhas e doando dinheiro para construção de escolas, hospitais, asilos e creches.




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