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  • Marcelo Faria de Barros

Veterinário mata prostituta com remédio para abater animais


A garota começou a passar mal logo após cheirar clorofórmio. Ao invés da sensação de euforia, teve náuseas e tontura. Pediu um remédio ao rapaz. Precisava voltar para casa dirigindo. Ele apanhou a maleta. Carregava-a sempre quando estava fora da clínica veterinária em Campos do Jordão, onde trabalhava e residia. Apanhou a ampola de Plasil para enjoo. Ficou olhando, distraído, por alguns segundos enquanto a mulher amarrava o garrote no próprio braço. Pegou outra ampola: T-61, medicamento à base de curare e anestésico, usado em veterinária para o sacrifício de animais domésticos.


Perfurou com a agulha o centro da tampa de borracha do frasco-ampola e aspirou dois centímetros cúbicos da substância, transferido-a para a seringa. Introduziu a agulha na veia da mulher e injetou o remédio. Maria Regina Resende, de 25 anos, morreu 20 segundos depois. Antes mesmo da retirada da agulha do braço. Eram 16h30m do dia 5 de setembro de 1979, quarta-feira. Depois de assassinar a garota de programa, Dan Martin Blum, 25 anos, estudante do quinto ano de veterinária na Universidade de São Paulo (USP) colocou-a estendida sobre a cama de casal dos pais dele. Deitou–se ao lado dela e cochilou por meia hora. Confessaria, mais tarde, que a morte dela lhe era indiferente. Não sentira nenhum tipo de remorso pelo crime.


Boca do luxo

O casal se conhecia havia três anos. Mantinha encontros ocasionais. Maria Regina era prostituta na “boca do luxo”, área de boates e de boêmia na Vila Buarque, centro da cidade de São Paulo. Costumava atender na residência dos clientes. Nascida em Araguari, Minas Gerais, morava na capital paulista desde 1973. Não tinha parentes em São Paulo. Dividia uma quitinete com uma amiga, Roseli Aparecida de Oliveira, de 20 anos, na Avenida Amaral Gurgel, embaixo do Minhocão, na mesma região da boca do luxo.


De família rica, Dan Martin Blum era frequentador assíduo da boca do luxo. Gostava de circular pelas boates Scarabocchio, La Licorne, L’Amour, Love Story, Clube de Paris e Michel. Mas sair mesmo só com as que trabalhavam nas ruas. Uma vez, numa madrugada, ajudou Maria Regina a escapar de uma batida policial na rua, promovida pela Delegacia da Vadiagem. Passaram a se encontrar. Nunca deixou de pagar pelos programas e ela de cobrar. Nunca brigaram. Ele fazia questão de dizer para Maria Regina que, das mulheres da boca, “era ela a que ele mais gostava”.


Na tarde do crime, foram à residência dos pais dele em Interlagos, zona sul. A família estava na Europa. Só havia uma empregada, que dormia na casa. Ela não viu o casal chegar. Dan Martin Blum e Maria Regina foram para o quarto dos pais dele e mantiveram relações sexuais na cama do casal. O encontro foi sem qualquer incidente, desentendimento ou discussão. Quando terminaram, Maria Regina resolveu cheirar clorofórmio. Ele não quis acompanhá-la. Combinara sair à noite com a namorada. Foi neste momento que ela começou a passar mal.


Largou o cadáver dentro carro na rua

Depois de cochilar por meia hora ao lado da garota morta, Dan Martin Blum levantou-se, tomou banho e vestiu-se para sair. Antes, levou o corpo de Maria Regina até o carro dela. o Fiat amarelo, de placa KK-6890, na garagem da residência. Colocou-a deitada, no assoalho, entre os bancos dianteiro e traseiro. Fechou a porta de trás do carro que já estava com os vidros traseiros fechados.


A empregada mais uma vez não viu nada. O estudante de veterinária saiu dirigindo o carro de Maria Regina até a Avenida Faria Lima, no Jardim Paulistano, na zona sul. Anoitecia. Estacionou na rua, trancou o carro e foi se encontrar com a namorada. Dan Martin Blum e a namorada foram ao cinema e jantaram. Ele não comentou nada com ela.


Às duas horas da madrugada, ele a deixou em casa e retornou à Avenida Faria Lima. O carro continuava como ele havia deixado. Entrou no Fiat e seguiu para o campus da USP, na zona oeste. O lugar estava praticamente deserto quando chegou. A segurança não se incomodou quando ele passou de carro pela portaria. Dan Martin Blum seguiu em direção ao prédio da faculdade de Veterinária, onde cursava o quinto ano. Seu intuito era entrar no crematório de animais e incinerar o corpo da prostituta. Mas encontrou um aviso na porta de que o crematório estava temporariamente desativado.

Não se afligiu. Viu um bueiro próximo ao prédio, levantou a tampa do tipo vazada e jogou dentro o cadáver de Maria Regina Resende. Recolocou a tampa e foi embora com o carro dela. Na Rua Acari, em Santo Amaro, zona sul, abandonou o Fiat, depois de pegar a bolsa, com documentos e as coisas de Maria Regina, e as chaves do veículo. Voltou de táxi para casa dos pais. No dia seguinte viajou para Campos do Jordão.


Agitou a boca do luxo

Vinte e quatro horas após o sumiço de Maria Regina Resende, a amiga com quem ela dividia a quitinete, registrou queixa. Nervosa, Roseli Aparecida de Oliveira se confundiu. Contou aos policiais que a amiga havia saído com um cliente de nome “Carlos”, que seria veterinário. Roseli nunca havia falado com Dan Martin Blum, por isso a confusão de nomes. A polícia fez um retrato falado do suspeito com as informações dela.

A notícia do desaparecimento agitou a noite paulistana e espalhou o medo na boca do luxo. Muitos comentários e boatos. O mais forte era de que um maníaco estaria agindo na região, atacando prostitutas e travestis. Instalou-se o pânico. As mulheres e os homossexuais só andavam, ou ficavam na rua, em grupos.


Dan Martin Blum retornou três dias depois a São Paulo da viagem a Campos do Jordão. Maria Regina e o carro não tinham sido localizados.Na manhã seguinte, ele foi ao prédio da Faculdade de Veterinária da USP, para verificar os horários das provas. À saída, parou no local onde havia deixado o corpo. Achou que era possível vê-lo de fora embora a tampa do bueiro estivesse fechada. Voltou para a casa dos pais.


No final da noite, retornou ao campus da USP. Transportava no carro da família, 10 litros de gasolina. Despejou parte do combustível sobre o corpo de Maria Regina no bueiro e colocou fogo. Em seguida foi ao bairro de Santo Amaro e incendiou o Fiat. Temia que a polícia encontrasse suas impressões digitais. O incêndio do veículo na rua, chamou a atenção. A polícia pesquisou a placa no Detran e descobriu que era o carro de Maria Regina. A descoberta aumentou o mistério. Por que o carro foi incendiado? Onde estava a garota de programa?, perguntavam as manchetes dos jornais. No dia 18 de setembro de 1979, treze dias após o desaparecimento, a direção da USP informou à polícia a descoberta de um corpo carbonizado num dos bueiros do campus. Um funcionário da limpeza o encontrou. Exame de arcada dentária confirmou que o corpo era de Maria Regina Resende.


Pista veio através de informante


Enquanto a garota e o carro ainda não tinham sido localizados, a polícia foi obrigada a verificar diversas pistas chegadas anonimamente por telefone. Todas falsas. Uma madrugada veio a informação “quente”, como se diz na gíria, para esclarecer o caso.


Um informante da polícia, “ganso”, na linguagem do submundo, entrou num bar para comprar cigarro e ouviu uma conversa estranha. Ele contou aos policiais da Divisão do Patrimonio do Deic que dois “loques” (também conhecido na gíria da malandragem paulistana por “jeremias”, como eram chamados os ingênuos que frequentavam a noite) e uma prostituta, comentavam em voz alta o assassinato de Maria Regina Resende, enquanto bebiam. O que chamou atenção do informante foi o fato de um dos homens ter comentado que o assassino da garota era um veterinário de Campos do Jordão. Até então, sabia-se apenas que era um veterinário identificado como “Carlos”. O homem falava com tanta convicção que o informante resolveu anotar. Citava até o endereço de uma clínica. A polícia nunca descobriu como e quem era o homem que tinha aquelas informações. A suspeita era de que fosse um amigo ou cliente para quem Maria Regina falara sobre Dan Martin Blum.


Prisão


Na manhã de 23 de setembro.Um homem bateu à porta de uma clínica veterinária em Campos do Jordão. Era um investigador do Deic Fazendo-se passar por cliente foi atendido por uma funcionária. O homem explicou que estava com um cão doente no carro, precisando atendimento. A mulher mandou que ele apanhasse o animal que o doutor Dan o atenderia. O policial foi ao carro buscar o cachorro (que estava bem sadio e pertencia a um colega). No caminho fez sinal para os colegas, confirmando a presença do suspeito na clínica. Quando o veterinário apareceu, foi preso. Dan Martin Blum estava com os documentos de Maria Regina Resende e a chave do carro dela, ao ser capturado pela equipe de policiais civis de São Paulo. Na viagem para a capital, antes mesmo de ser interrogado, confessou o crime sem demonstrar qualquer arrependimento.


Na madrugada seguinte à prisão de Dan Martin Blum ocorreu uma manifestação e carreata no centro de São Paulo. O assassinato de Maria Regina Resende com uma dose mortal de injeção de curare causou muita revolta e comoção. Cerca de 300 prostitutas, travestis, e simpatizantes, além de 70 carros desfilaram pelas ruas e avenidas da boca-do-luxo, boca-do-lixo e outras regiões, cobrando justiça. Os manifestantes foram para a frente do antigo prédio do Deic, no bairro da Luz, onde Dan Martim Blum estava preso e depois na frente das casas do secretário de segurança pública, e do juiz- corregedor dos presídios, para exigir rigor nas apurações. Portavam faixas e cartazes. Dois deles com os dizeres: “A noite de São Paulo exige Justiça”; “Dan tem dinheiro, nós temos amor”.



Absolvido


Na primeira audiência para o julgamento, o juiz acolheu pedido da defesa e determinou que o veterinário fosse transferido para o manicômio judiciário para ser submetido a exame de sanidade mental. O laudo dos psiquiatras apontou que Dan Martin Blum era irresponsável, “inteiramente incapaz de entender o caráter criminoso do ato que cometera, em razão de sofrer de epilepsia. Ele foi absolvido do homicídio, mas o juiz lhe impôs, dada a periculosidade, o cumprimento de medida de segurança pelo prazo mínimo de seis anos no manicômio judiciário.


Ao longo da década de 1980, a defesa dele entrou com vários pedidos de habeas corpus. Alegava que ele estava recuperado. A Justiça indeferiu. Em 1987, sete anos após o crime, Dan Martin Blum foi solto, por determinação do STF, após um laudo psiquiátrico comprovar que ele estava apto a voltar a viver em sociedade.


Morte na prisão


Quatro anos depois, no dia 22 de novembro de 1991, Dan Martin Blum voltou a ser preso em Campos do Jordão. Uma garota prestou queixa contra ele por rapto, cárcere privado e constrangimento ilegal. Dizia que o veterinário a obrigara a tirar fotos nuas depois de raptá-la e mantê-la em cárcere privado por nove dias em Campos do Jordão. Ao ser detido, a polícia encontrou no carro dele duas pistolas, uma das quais com silenciador, um machado e uma machadinha, facas, capuz, uma besta (arco e flecha com setas de pontas explosivas) e peças intimas de mulher.


Na manhã de 14 de dezembro de de 1991, Dan Martin Blum foi encontrado morto na cela. Ele estava sozinho e se enforcou com as alças de uma sacola.

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